Poluentes industriais e farmacêuticos passam a compor a matéria orgânica dissolvida dos oceanos

A matéria orgânica dissolvida dos oceanos contém uma parcela relevante de compostos associados a atividades humanas, incluindo poluentes industriais, fármacos e pesticidas. Uma análise de 2.315 amostras de água, coletadas entre 2017 e 2022 em diferentes regiões marinhas, identificou assinaturas químicas de 248 xenobióticos, substâncias produzidas ou transformadas pela ação humana. O resultado amplia a dimensão conhecida da poluição química no ambiente marinho e reforça a necessidade de observação contínua de seus efeitos ecológicos.

As amostras reuniram dados públicos gerados por grupos de pesquisa de diversos países nos oceanos Índico, Atlântico Norte, Pacífico Central e Oriental, além do Mar Báltico e do Caribe. Nas regiões costeiras, a contribuição mediana desses compostos para o sinal químico das amostras superou 20%, chegando a 76% nos pontos de encontro entre o mar e rios que recebem efluentes domésticos e industriais. Em mar aberto, longe da costa, a participação média foi de 0,5%, menor, mas relevante justamente pela distância em relação às fontes diretas de emissão.

O método empregado não quantifica cada substância em gramas ou miligramas. Ele identifica a presença dos compostos e seu destaque relativo no conjunto químico detectado em cada amostra. Essa distinção é importante para interpretar os resultados: o levantamento mapeia a extensão e a composição da contaminação, mas medições direcionadas seriam necessárias para determinar a concentração individual de cada poluente.

Os compostos industriais, sobretudo os de origem petroquímica, foram os mais recorrentes no conjunto de dados. Cinco deles apareceram em mais de 30% das amostras. Entre as classes encontradas estão polialquileno glicóis, ftalatos e organofosfatos. Os ftalatos são empregados para conferir flexibilidade e durabilidade a plásticos, enquanto parte dos organofosfatos é usada como aditivo industrial, inclusive em materiais retardantes de chama. A ampla dispersão dessas substâncias indica que produtos associados à cadeia dos plásticos já integram de forma expressiva a matéria orgânica dissolvida na superfície marinha.

Os fármacos se destacaram especialmente em estuários e áreas costeiras próximas a centros urbanos. Cinco metabólitos foram detectados em 10% a 37% das amostras, com maior frequência para um metabólito do atenolol, medicamento usado contra hipertensão. Também foram encontrados sinais relacionados a delorazepam, ácido nalidíxico, cloroquina e valsartana. A ocorrência não depende somente do volume de uso desses medicamentos: a persistência das moléculas e seu comportamento na água também influenciam o tempo em que permanecem detectáveis no ambiente.

Entre os pesticidas, os sinais mais intensos se concentraram na costa da África do Sul e no Caribe, sendo quase ausentes em águas oceânicas abertas. DEET e icaridina, ingredientes usados em repelentes de insetos, foram identificados em 30% e 6% das amostras, respectivamente. Para ampliar a capacidade de identificação, a pesquisa recorreu a redes moleculares, que agrupam substâncias por semelhanças estruturais. A abordagem permite reconhecer compostos ainda não catalogados diretamente, como produtos resultantes da metabolização de medicamentos.

Os dados indicam que a avaliação da poluição química marinha precisa combinar monitoramento padronizado, compartilhamento de dados e análises voltadas a substâncias e regiões específicas. O Atlântico Sul, incluindo a costa brasileira, não integrou o levantamento por falta de estudos anteriores com metodologia comparável. Ao tornar os conjuntos de dados acessíveis, a pesquisa cria uma base para investigações sobre como esses compostos podem afetar o ciclo do carbono e o funcionamento dos ecossistemas marinhos, questões centrais para orientar prevenção, mitigação e remediação dos impactos sobre os recursos biológicos.

Fonte: Matéria orgânica dos oceanos está carregada de poluentes industriais e farmacêuticos

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