Bagaço de uva mostra potencial como biofertilizante para flores comestíveis

O bagaço de uva, resíduo gerado na produção de vinho, apresentou potencial para substituir parte dos insumos do cultivo de calêndula pôr do sol, flor comestível de interesse para as indústrias de alimentos e cosméticos. Em ensaios conduzidos por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas e da Universidade Federal do Paraná, o material favoreceu o desenvolvimento das plantas e alterou o perfil de compostos de interesse das flores.

A matéria-prima foi convertida em digestato, um biofertilizante líquido obtido pela digestão anaeróbia, na qual microrganismos decompõem a matéria orgânica sem presença de oxigênio. A escolha do resíduo responde a uma escala relevante: o bagaço equivale a 20% a 25% da massa das uvas processadas e sua geração mundial é estimada entre 9 milhões e 13 milhões de toneladas por ano. Fibras, açúcares, compostos fenólicos, antioxidantes e pigmentos naturais permanecem no subproduto após a vinificação.

Os testes ocorreram ao longo de 2023, no verão e no inverno, para separar a influência do clima sobre a resposta das plantas. A equipe variou tanto as doses do biofertilizante quanto as condições de irrigação. Depois da colheita, as flores foram liofilizadas e submetidas a avaliações do crescimento da parte aérea, folhas e raízes, além de análises físico-químicas da qualidade do material produzido em comparação com o cultivo convencional.

O resultado mais expressivo foi registrado no verão. Com o uso do digestato, a concentração de betacaroteno chegou a 80,9 miligramas por 100 gramas de flor liofilizada, valor mais de 250% superior ao observado no cultivo sem o resíduo. Também houve aumento dos compostos fenólicos totais e da atividade antioxidante. No inverno, o destaque foi a maior retenção de pigmentos e minerais, indicando que o insumo pode enriquecer o perfil nutricional da calêndula em condições sazonais distintas.

O estudo, porém, ressalta uma condição operacional decisiva: mais fertilizante não significou melhor resultado. As doses moderadas produziram os melhores efeitos, enquanto aplicações excessivas prejudicaram o desenvolvimento das plantas. A interação entre quantidade de digestato e água, portanto, precisa ser controlada para que o aproveitamento do resíduo tenha desempenho agronômico consistente.

Para a adoção em maior escala, os pesquisadores apontam a necessidade de avaliar a viabilidade técnica e econômica do processo. Isso inclui examinar como a produção do digestato poderia ser integrada a vinícolas ou a empresas que já empregam digestão anaeróbia no tratamento de resíduos, bem como custos, logística e mercado para flores comestíveis. O desafio deixa de ser apenas comprovar o efeito no cultivo e passa a organizar uma rota produtiva capaz de operar fora das condições experimentais.

A próxima frente de trabalho busca extrair do bagaço compostos de interesse, como antioxidantes, fenólicos, açúcares e pigmentos naturais, para emprego em ingredientes alimentícios, cosméticos e outros produtos naturais. A proposta da equipe combina produção de energia, uso do digestato no cultivo e aproveitamento posterior das flores e de seus resíduos. O arranjo aproxima a vinificação de uma cadeia em que materiais hoje descartados podem retornar ao processo produtivo sob aplicações definidas e de maior valor agregado.

Fonte: Bagaço de uva vira biofertilizante para o cultivo de flores comestíveis

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