Uma equipe de 16 pesquisadores brasileiros iniciará uma expedição de três semanas à Serra do Aracá, no extremo norte do Amazonas, perto da fronteira com a Venezuela. A missão pretende ampliar o conhecimento sobre a fauna, a flora e a trajetória evolutiva dos ecossistemas situados nos platôs elevados da região, onde as altitudes variam de 1.300 a 1.700 metros. O acesso será feito por helicóptero, a partir de Barcelos, no rio Negro, a 220 quilômetros do acampamento.
A incursão encerra um projeto de mapeamento das terras altas da Amazônia brasileira, que já levou a equipe ao Pico da Neblina, em 2017, e à Serra do Imeri, em 2022. Nessas duas etapas, foram identificadas duas famílias novas de sapos no Neblina, espécies de lagartos do gênero Riolama, uma nova espécie de ave no Imeri, anfíbios ainda não descritos e um novo gênero de caranguejo de água doce. Esses resultados elevam a expectativa sobre o Aracá, embora os pesquisadores ressaltem que a composição biológica local permanece pouco conhecida.
Os platôs do Aracá integram o complexo montanhoso Tulu-Tuloi, nome adotado pela expedição. O plano inicial era alcançar cotas próximas de 2.070 metros, mas a impossibilidade de reconhecimento prévio no local exigiu revisão da rota. O Exército Brasileiro dará suporte à montagem dos acampamentos, abertura de trilhas, alimentação e segurança. O trabalho ocorrerá no Parque Estadual da Serra do Aracá, unidade de conservação criada em 1990 e com 1,8 milhão de hectares.
O interesse científico está ligado ao isolamento dessas formações. A erosão do antigo platô da região ao longo de milhões de anos separou maciços de altitude por vales e pela floresta de baixa altitude, criando condições para a diferenciação de linhagens. Comparações anteriores já indicaram conexão física no passado entre o Pico da Neblina e a Serra do Imeri: no Imeri, a equipe encontrou a espécie irmã de um sapo descoberto no Neblina. No Aracá, a investigação poderá ajudar a organizar essa história biogeográfica em escala regional.
A serra também está na transição entre duas províncias dos tepuis sul-americanos. Sua geologia é formada por platôs de arenito da Formação Roraima, com cerca de 2 bilhões de anos, diferindo do Imeri, onde a erosão expôs relevo de granito pré-cambriano. Na distribuição da fauna, o Aracá se localiza entre a área oriental, associada ao Monte Roraima e a grupos como Oryophrynella, e a porção ocidental, representada pelo Pico da Neblina, onde ocorrem Metaphriniscus e um gênero de sapo descoberto no projeto. A posição de fronteira torna incerta a afinidade das espécies que poderão ser registradas.
Além dos métodos convencionais de coleta, a equipe empregará DNA ambiental em amostras de solo e água. A técnica busca detectar material genético deixado por organismos que não sejam capturados diretamente, incluindo anfíbios e outros animais de observação difícil, além de vírus e bactérias presentes no ambiente. A decisão decorre de uma experiência no Imeri: um girino inicialmente considerado comum foi associado, em análises genéticas posteriores, a uma espécie desconhecida de sapo, sem que um indivíduo adulto tivesse sido coletado.
O desenho de campo reunirá botânica, estudo de pólen, répteis e anfíbios, aves, mamíferos, invertebrados e parasitologia. Animais registrados terão amostras de sangue e de parasitas internos e externos coletadas, permitindo analisar conjuntamente patógenos, vetores e microrganismos ligados à saúde ecológica do ambiente. Gravadores autônomos funcionarão nos dois acampamentos para registrar vocalizações; répteis passarão por testes de preferência térmica; e roedores terão seus cromossomos mapeados ainda em campo com uma centrífuga manual. Ao comparar os dados das montanhas amazônicas com populações dos campos de altitude da Mata Atlântica, o projeto buscará examinar como espécies de diferentes latitudes responderam às mudanças ambientais ao longo do tempo.
Fonte: Expedição inédita vai mapear a biodiversidade do topo da Serra do Aracá, no norte do Amazonas
