Estudo propõe ler a nova bioeconomia como transição estrutural das cadeias produtivas

Um estudo sobre a chamada nova bioeconomia propõe deslocar o foco da lista de setores para a transformação da base material e organizacional da produção. A tese central é que recursos biológicos renováveis, processos biológicos e resíduos circulares podem substituir ou complementar insumos fósseis, minerais e petroquímicos. Mas essa troca não se resume à escolha da matéria-prima: ela altera produtos, custos, riscos, infraestrutura, regras públicas e a distribuição de valor entre regiões e empresas.

A análise identifica uma mudança de lógica produtiva. Em vez de depender exclusivamente de extrair, refinar e descartar recursos não renováveis, parte da economia passa a cultivar, coletar, modificar, processar, recuperar e recircular materiais biológicos. Isso inclui desde resíduos agrícolas e florestais até microrganismos empregados na produção de combustíveis, enzimas, ingredientes, fármacos e compostos químicos. O texto ressalta, porém, que a origem renovável não elimina pressões sobre terra, água, trabalho, biodiversidade e poluição.

O avanço depende da combinação entre ferramentas científicas e capacidades industriais. Biologia molecular e genômica permitem identificar funções e características; engenharia genética e biologia sintética tornam organismos e rotas biológicas modificáveis; engenharia de bioprocessos viabiliza repetição e escala. Sensores, inteligência artificial, monitoramento remoto e sistemas de dados ampliam a capacidade de acompanhar e otimizar a produção. Já armazenamento, rastreabilidade e medição conectam insumos dispersos a cadeias que exigem qualidade, origem comprovada e conformidade ambiental.

O trabalho organiza a substituição em cinco frentes: troca de matérias-primas, de materiais, de energia, de processos e de resíduos por insumos. Entre os exemplos citados estão biomassa e algas em lugar de insumos derivados de petróleo; madeira engenheirada, bioplásticos e fibras de base biológica; biocombustíveis e gás renovável; fermentação, conversão enzimática e biorremediação; além do aproveitamento de esterco, restos de alimentos, efluentes e resíduos de culturas. A prioridade para usos de maior valor antes da recuperação energética é apresentada como um critério de cascateamento dos materiais.

Para os autores, uma rota tecnológica só se torna economicamente relevante quando forma um sistema de suprimento confiável. Isso exige articulação entre produção ou recuperação do insumo, colheita, separação, armazenamento, pré-processamento, conversão, controle de qualidade, transporte, certificação, financiamento, demanda e regras regulatórias. Resíduos orgânicos, por exemplo, não se convertem automaticamente em recursos: sua utilização depende de volume, composição, momento de disponibilidade, controle de contaminação e situação legal conhecidos.

Essa reorganização também redesenha a estrutura de custos. Materiais biológicos podem ser úmidos, volumosos, sazonais, perecíveis ou variáveis; por isso, distância de transporte, armazenamento e localização das unidades de processamento passam a ser decisivos. Eventos climáticos, pragas, doenças, incêndios e contaminação adicionam riscos à oferta e à qualidade. Ao mesmo tempo, a redução de custos de descarte, a criação de coprodutos e a recuperação circular podem melhorar a viabilidade de determinadas cadeias. O estudo alerta que a competitividade depende de contabilizar tanto benefícios quanto impactos ambientais e sociais.

O ponto mais sensível é o controle sobre os elos estratégicos. Unidades de processamento, tecnologias de colheita, linhagens proprietárias, plataformas de dados, protocolos de medição de carbono, certificações, infraestrutura de armazenamento e regras de compras públicas podem concentrar poder econômico. Regiões ricas em biomassa correm o risco de fornecer matéria-prima enquanto atividades de maior valor, processamento, dados, financiamento, propriedade intelectual e definição de padrões, ficam em outros territórios. A alternativa, segundo o estudo, passa por cadeias que combinem capacidade local de processamento, emprego técnico, oportunidades de propriedade regional, qualificação profissional e instrumentos públicos capazes de reduzir falhas de coordenação sem transferir pressões ambientais para outros elos do sistema.

Fonte: The New Bioeconomy: Bioeconomy as Structural Transition: Renewable Substitution and Reconfigured Supply Systems

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