Esponjas comerciais retêm microplásticos no esqueleto e expõem lacuna para a cadeia marinha

Esponjas marinhas comerciais podem reter microplásticos por longos períodos em seus esqueletos de espongina, segundo uma investigação de amostras de Spongia tubulifera, do Caribe, e Hippospongia communis, do Mediterrâneo. O achado desloca a discussão sobre a poluição plástica da coluna d’água para estruturas biológicas persistentes do fundo marinho e abre uma questão prática para uma cadeia que utiliza esses organismos em aplicações cosméticas e domésticas.

O estudo encontrou materiais sintéticos em forma de fibras, partículas e filmes fisicamente entrelaçados na arquitetura porosa tridimensional das esponjas. Foram identificados polietileno, poliamida, polipropileno, poli(tereftalato de etileno), poliestireno, poliuretano, polietileno de baixa densidade, poliacrilonitrila e poli(metil metacrilato). A diversidade, observada em organismos de duas regiões marinhas, indica que a incorporação não se limita a um único tipo de plástico ou a uma localização específica.

A equipe empregou microscopia digital, fluorescência e microscopia eletrônica de varredura, além de análises térmicas e espectroscópicas. Um teste de coloração separou visualmente a espongina, que absorveu o corante azul por sua natureza proteica, de filamentos sintéticos que permaneceram sem coloração. As imagens também mostraram que os contaminantes não estavam apenas aderidos à superfície: em alguns pontos, as fibras plásticas haviam sido envolvidas pelas fibras naturais do esqueleto.

Na análise por espectroscopia infravermelha a laser, realizada em partículas de 20 a 500 micrômetros, a maior parte dos itens detectados tinha até 150 micrômetros. O polipropileno foi o polímero mais frequente nas duas espécies: 60 partículas, cerca de 30% do total registrado em S. tubulifera, e 36 partículas, aproximadamente 20%, em H. communis. Nesta última, o poliuretano também teve presença relevante, com 41 partículas, perto de 23% do total. A primeira espécie apresentou maior conteúdo de microplásticos entre os materiais examinados.

Os resultados ainda distinguiram padrões de contaminação. Em S. tubulifera, predominavam microfibras, incluindo materiais compatíveis com polipropileno e polietileno de baixa densidade; a espectroscopia Raman confirmou fibras de poli(tereftalato de etileno) e polipropileno. Já em H. communis, foram observados fragmentos de maior porte, inclusive filmes de escala centimétrica. A combinação de métodos indicou um filme multicamada de polietileno e poliamida, compatível com material de embalagem, e uma lâmina identificada como polietileno de baixa densidade.

A retenção decorre do próprio funcionamento das esponjas como filtradoras. Uma vez capturados, os plásticos podem ficar presos na espongina e ser gradualmente incorporados à matriz estrutural. Isso pode reduzir localmente a mobilidade das partículas na água, mas concentra o material em habitats bentônicos. O destino posterior permanece incerto: a degradação ou a fragmentação das esponjas pode voltar a liberar essas partículas no ambiente, o que impede tratá-las, por enquanto, como sumidouros definitivos.

Para a bioeconomia marinha, o resultado aponta duas frentes que exigem avaliação: a qualidade ambiental das áreas de coleta e cultivo e o uso das esponjas como biomonitoras da poluição costeira. As espécies comerciais analisadas registraram a exposição a microplásticos presentes no ambiente, mas o trabalho não avaliou efeitos sobre o desempenho biológico das esponjas, suas relações ecológicas ou a segurança de produtos. Essas lacunas, assim como a comparação entre organismos cultivados e coletados em diferentes condições, permanecem centrais para orientar monitoramento e produção de biomassa marinha.

Fonte: Industrial marine sponges as natural sinks of microplastics: A hidden risk for the global marine bioeconomy

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