Isótopos da chuva revelam sinais antecipados das secas na Amazônia Central

As secas históricas de 2023 e 2024 na Amazônia deixaram uma assinatura mensurável na própria chuva. Um monitoramento diário realizado em Manaus identificou mudanças na proporção de isótopos da água, traçadores naturais sensíveis à evaporação e à condensação, associadas à menor disponibilidade de umidade e ao agravamento das estiagens. Os resultados indicam que esse acompanhamento pode acrescentar um sinal de alerta precoce para secas prolongadas, desde que seja sustentado por observações de longo prazo.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Estadual Paulista, analisou 207 amostras de chuva coletadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia entre março de 2023 e fevereiro de 2025. A série foi comparada a medições meteorológicas locais e a dados e modelos atmosféricos globais. A escala diária foi decisiva: permitiu separar efeitos de sistemas que atuam sobre grandes áreas daqueles ligados à intensidade das chuvas e à umidade em Manaus.

Nos meses mais chuvosos, de março a maio, a composição isotópica foi predominantemente influenciada pela Zona de Convergência Intertropical. Quando essa faixa de nuvens se desloca para o sul, favorece o transporte de ar úmido do Atlântico Norte. Os sucessivos eventos de chuva ao longo desse percurso até Manaus elevam a presença relativa de isótopos mais leves. Entre junho e agosto, com o recuo desse sistema para o norte, ganhou importância a Alta Subtropical do Atlântico Sul, que favorece massas de ar mais secas e menor ocorrência de precipitação.

Nos períodos seguintes do ano, a leitura é mais dependente das condições locais. Chuvas de menor volume apresentam maior concentração de isótopos pesados, que tendem a precipitar antes; tempestades intensas, por sua vez, diluem essa concentração. A elevada umidade amazônica reduz a evaporação que retiraria isótopos leves das gotas, enquanto o ciclo rápido de evaporação e condensação das tempestades de verão pode aumentar a participação dos isótopos pesados. Essa combinação explica a grande variabilidade observada fora da estação de maior chuva.

O estudo também retomou a comparação com coletas feitas em Manaus entre 1965 e 1990 e encontrou diferenças compatíveis com condições recentes mais quentes e secas. Em 2023 e 2024, o El Niño dificultou a formação de nuvens na Amazônia Central ao favorecer a descida do ar úmido. O processo coincidiu com o aquecimento anormal do Atlântico Norte, que desloca a Zona de Convergência Intertropical para o norte e reduz a entrada de umidade na região.

O dado mais relevante para o monitoramento hidrológico apareceu ainda durante a estação chuvosa. Em 2024, o sinal isotópico característico da estação seca surgiu em maio, um mês antes do padrão histórico citado pelos pesquisadores; naquele ano, a seca foi mais severa que a de 2023. Em condições mais quentes e secas, a evaporação das gotas concentra isótopos pesados. A antecipação desse marcador sugere uma possibilidade operacional de acompanhamento de risco, mas os autores ressaltam que sua recorrência precisa ser testada em séries de 20 a 30 anos.

A pesquisa recoloca as técnicas isotópicas no centro do monitoramento hidroclimático amazônico, após décadas de interrupção nas coletas sistemáticas. Desde 2020, instituições vêm estruturando uma nova rede regional. No doutorado iniciado em fevereiro, a pesquisadora responsável pelo trabalho pretende ampliar as amostragens para 19 estações na Amazônia e áreas vizinhas. O objetivo é detalhar a influência dos sistemas atmosféricos sobre a chuva e acompanhar o percurso do vapor que entra pelo Atlântico, recircula pela floresta e contribui para precipitações no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.

Fonte: Cientistas usam isótopos da água para mapear alterações nas chuvas da Amazônia

Compartilhar