Especialistas cobram protagonismo da biodiversidade nas negociações da COP-30

Pesquisadores e cientistas ambientais alertaram para a ausência da biodiversidade como tema central na preparação da COP-30, que ocorrerá em novembro de 2025, em Belém (PA). O alerta foi feito durante a primeira das Conferências FAPESP 2025, realizada no dia 28 de março, com a presença de especialistas de diversas instituições e a participação de Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Alencar destacou que, apesar de ser diretamente afetada pelas mudanças no clima, a biodiversidade tem papel crucial na mitigação e adaptação aos efeitos climáticos. Os chamados serviços ecossistêmicos, como regulação do clima e da água, polinização e conservação do solo, dependem de ecossistemas saudáveis. “Evitar o desmatamento reduz emissões de gases de efeito estufa e restaurar ecossistemas promove a remoção de carbono da atmosfera”, afirmou.

Ela também sustentou que soluções baseadas na natureza, como a restauração de encostas, contribuem diretamente para a prevenção de desastres e promovem segurança alimentar e saúde pública, ao permitir o cultivo com redução de insumos químicos. Segundo a pesquisadora, esses temas precisam ganhar espaço formal nas negociações da conferência.

No entanto, como apontou Simone Vieira, pesquisadora do BIOTA e do Nepam-Unicamp, a palavra “biodiversidade” aparece apenas três vezes na carta oficial da presidência brasileira da COP-30 enviada à comunidade internacional. O documento, composto por 11 páginas, apresenta a visão nacional sobre os objetivos da conferência, mas ignora amplamente essa dimensão.

“Não faz sentido essa separação. Clima e biodiversidade são fenômenos interdependentes”, afirmou Vieira. A crítica foi reforçada por Carlos Joly, professor emérito da Unicamp, que recordou a ausência de mecanismos semelhantes ao “princípio da responsabilidade comum, porém diferenciada”, aplicado nas negociações climáticas, na agenda de conservação da biodiversidade.

Os entraves não são novos. Joly apontou que há mais de duas décadas se tenta integrar essas agendas nos fóruns internacionais, mas a resistência permanece. Um exemplo concreto citado foi a oposição do Brasil à aprovação de um relatório conjunto do IPCC e da IPBES, que organizou um workshop técnico para discutir a convergência entre biodiversidade e clima. O país apenas reconheceu a existência do documento, sem incorporá-lo às decisões oficiais.

A ausência desses temas no debate institucional tem impactos diretos. Alencar destacou que, por não serem considerados relevantes para o inventário de emissões, os incêndios florestais seguem de fora das obrigações climáticas do país, embora resultem em grandes volumes de emissões. “Na Amazônia, 65% das emissões atribuídas ao fogo ocorrem de forma tardia, após a morte das árvores causada pelos incêndios”, alertou.

Ela defendeu que esse tipo de evento, com causas antrópicas e agravado por condições climáticas extremas, deve ser tratado como questão climática e levado aos compromissos da COP-30. A falta dessa abordagem, segundo os especialistas, enfraquece não apenas as metas ambientais brasileiras, mas também compromete a credibilidade da presidência brasileira do evento.

Em preparação para a conferência, outras cinco edições das Conferências FAPESP estão previstas ao longo do ano, tratando de temas relacionados à biodiversidade e mudanças climáticas. A discussão da integração dessas agendas deve prosseguir, à medida que cresce a pressão da comunidade científica para que a biodiversidade tenha papel estruturante nas deliberações internacionais sobre o clima.

Fonte: Cientistas defendem maior inserção da biodiversidade na agenda da COP-30

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