O Brasil entra na etapa decisiva de consolidação de sua Política Nacional de Bioeconomia com dois ativos relevantes: maior visibilidade internacional e uma agenda institucional mais organizada. A liderança recente do país no G20 e na COP30 ampliou a percepção externa de que a agenda brasileira pode combinar conservação, produção e inovação. O ponto crítico, agora, é menos conceitual e mais operacional: transformar planos, cooperação e reconhecimento em investimentos, renda e execução local.
O potencial econômico dimensiona a escala da oportunidade. Estudo da Câmara de Comércio Internacional Brasil estima que a bioeconomia do conhecimento pode gerar entre US$ 100 bilhões e US$ 140 bilhões em receitas anuais até 2032. A projeção abrange setores como alimentos, cosméticos, saúde, materiais e agronegócio, em uma abordagem que conecta ciência, tecnologia e saberes tradicionais à geração de valor.
A projeção internacional do país foi reforçada pela avaliação de que o Brasil reúne condições pouco comuns: florestas tropicais em escala continental, matriz energética majoritariamente limpa e capacidade agrícola. Essa combinação tem sustentado a leitura de que o país pode ir além do papel de detentor de biodiversidade e se posicionar como provedor de soluções baseadas na natureza, apoiadas por políticas públicas, programas federais e estaduais e experiências já existentes nos territórios.
A construção do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia foi marcada por participação social e articulação entre instituições. O processo reuniu mais de 1.300 contribuições em diálogos regionais e consultas públicas, mobilizou 98 instituições e envolveu cerca de 480 participantes em encontros presenciais. Entre eles, estiveram mais de 160 representantes de povos e comunidades tradicionais. Também foram mapeados 177 empreendimentos comunitários de sociobioeconomia, que reúnem cerca de 19 mil membros.
Esse desenho participativo é apontado por representantes empresariais como um dos avanços centrais da política. A convergência entre diferentes setores ajudou a formar uma base comum para tratar a bioeconomia como vetor de desenvolvimento socioeconômico. O mérito do processo está em reconhecer a diversidade de cadeias, territórios e visões envolvidas, sem reduzir a agenda a uma única leitura produtiva ou ambiental.
A cooperação internacional teve papel direto nessa estruturação. O programa UK PACT, liderado pelo governo britânico, apoiou a formulação da agenda no campo das políticas públicas, do diálogo multissetorial e da produção de conhecimento técnico. O Reino Unido aparece como o terceiro maior investidor em clima no Brasil e o segundo principal parceiro científico, com portfólio superior a R$ 4,4 bilhões em projetos. Um dos aprendizados destacados nesse processo é que políticas nessa área dependem de construção com quem conhece a realidade local.
O principal gargalo, porém, permanece na passagem da formulação para a escala. Especialistas apontam três frentes prioritárias: execução das políticas públicas, criação de instrumentos financeiros inovadores e fortalecimento de parcerias multissetoriais. Cadeias da sociobiodiversidade, restauração ecológica e soluções baseadas na natureza já demonstram viabilidade econômica, mas ampliar sua presença no mercado exige combinação de apoio técnico, crédito, inovação e gestão. A cooperação externa pode ajudar a reduzir incertezas ao assumir riscos iniciais, criar referências e tornar oportunidades mais visíveis para novos investidores.
Com o PNDBio lançado, a agenda passa a ser medida pela capacidade de execução. Os próximos passos incluem fortalecer parcerias estratégicas, ampliar a articulação entre setor público e privado e direcionar financiamento e assistência técnica para a ponta. O teste da política será sua capacidade de fazer com que o potencial reconhecido globalmente chegue às cadeias produtivas, aos empreendimentos comunitários e aos territórios onde a geração de renda precisa acontecer.
