Experimentos conduzidos na Universidade Estadual de Campinas indicam que o biocarvão (também chamado de biochar) pode acelerar a fase inicial de desenvolvimento do agave e elevar de forma relevante a produção de matéria vegetal. Segundo os pesquisadores, os melhores tratamentos com o insumo resultaram em 60% mais biomassa, um dado que mira um dos gargalos agronômicos para ampliar o uso da planta em rotas energéticas: o tempo até o “disparo” de crescimento, estimado pela equipe em dois anos e meio a três anos.
O estudo foi desenvolvido no Laboratório de Genômica e Bioenergia (LGE) do Instituto de Biologia da Unicamp, no âmbito do Programa Brazilian Agave Development (Brave), e publicado na revista Biomass and Bioenergy. Além de aplicações industriais tradicionais, o agave vem sendo investigado como fonte de biocombustíveis; no Brasil, a espécie Agave sisalana sustenta a cadeia do sisal, com produção de 93 mil toneladas de fibra em 2024, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
A equipe comparou biocarvões gerados por pirólise a partir de três matérias-primas: bagaço de cana-de-açúcar, casca de Coffea arabica e biomassa de agave. O objetivo foi entender se a origem do material altera o efeito no solo, nos microrganismos e no crescimento do agave, e buscar um ponto de equilíbrio entre melhoria do solo e sequestro de carbono, já que o biocarvão é reconhecido como uma rota promissora para reter carbono no solo. Os autores destacam, porém, que a resposta depende do contexto: nem todo solo se beneficia do biochar, e a literatura aponta impacto mais positivo em solos tropicais do que em temperados; em solo já rico em carbono, o efeito pode ser pouco perceptível.
No ensaio com biocarvão de cana, o material foi produzido por pirólise rápida em reator de leito fluidizado e incorporado ao solo, em vasos, nas proporções de 0% (controle), 5%, 10% e 20% do volume total, com monitoramento por 26 semanas. O experimento com biocarvão de café repetiu o delineamento e durou nove semanas. No terceiro, com biocarvão de agave produzido e caracterizado na Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, foram usadas mudas de A. sisalana propagadas in vitro, com dados referentes às primeiras oito semanas de desenvolvimento.
Os resultados indicaram que a dose aplicada teve papel mais determinante do que a origem do biocarvão. De acordo com a equipe, a concentração de 10% elevou área foliar e biomassa do agave, enquanto doses intermediárias, 5% a 10%, favoreceram a microbiota e o crescimento vegetal. Já no patamar mais alto testado, 20%, os pesquisadores observaram desempenho semelhante ao controle ou até redução do crescimento. Para acompanhar o desenvolvimento sem destruir as plantas, o grupo estimou a área foliar com imagens captadas de cima e processadas por software que converte pixels em centímetros quadrados.
Além do desempenho agronômico, o trabalho detalha efeitos no funcionamento do solo: doses moderadas aumentaram a atividade microbiana e a atuação de enzimas associadas à disponibilização de nutrientes para a planta. Os pesquisadores atribuem parte do resultado à interação da rizosfera com o biocarvão, mediada por substâncias secretadas pelas raízes, e relatam estudos em andamento com inóculos sintéticos para induzir condições mais favoráveis aos microrganismos benéficos, bem como a seleção daqueles de maior interesse para o sistema.
O artigo também aponta desafios de engenharia para viabilizar biochar de agave em escala. Na pirólise dessa biomassa, o processo pode gerar uma graxa que obstrui a tubulação do reator; para contornar o problema, um dos coautores desenvolveu um reator próprio, que permitiu produzir biocarvão a partir de folhas e bulbo do agave. Em paralelo, a equipe discute usos do cultivo com biocarvão para produzir etanol, biogás e CO2 puro, e menciona o avanço do tema em política pública: o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em conjunto com a Associação Brasileira de Normas Técnicas, instalou a Comissão de Estudo Especial 328 para estruturar tecnicamente o biocarbono pirogênico no Brasil, com foco no biocarvão. O estudo pode ser consultado em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0961953425009080.
Fonte: Uso de biocarvão no cultivo de agave aumenta em 60% a biomassa vegetal
