Conchas, peles, vísceras, ossos e efluentes gerados no processamento de frutos do mar seguem amplamente subaproveitados, apesar de o setor sustentar a nutrição e cadeias produtivas em escala global. Uma revisão publicada na ScienceDirect reúne avanços recentes que propõem transformar esses subprodutos em insumos de maior valor, por meio de rotas integradas de aproveitamento em cascata, com potencial de reduzir descarte e impactos locais em áreas costeiras.
O ponto de partida é o tamanho do problema: estimativas citadas no trabalho indicam que 20% a 70% da biomassa pode se tornar subproduto, a depender da espécie e do tipo de processamento, com crustáceos e moluscos entre os que mais geram resíduos. Quando descartados sem tratamento, esses materiais podem aumentar a carga ambiental, com efeitos como eutrofização em águas costeiras, emissões pela decomposição descontrolada e problemas de odor e patógenos para comunidades próximas.
A revisão descreve esses fluxos não como “lixo”, mas como reservatórios bioquímicos para cadeias de valor. Em cascas de crustáceos, destacam-se quitina e carotenoides como a astaxantina. Em peles e escamas de peixes, a presença de colágenos e proteínas. Em vísceras de moluscos, polissacarídeos sulfatados com potencial bioativo. Ossos e conchas podem fornecer carbonato de cálcio e hidroxiapatita para aplicações como nutracêuticos, fertilizantes ou biomateriais. Óleos de vísceras concentram ácidos graxos poli-insaturados, incluindo EPA e DHA.
O principal gargalo, segundo os autores, não é a falta de valor intrínseco, mas a ausência de sistemas escaláveis, economicamente viáveis e sustentáveis para capturar esse valor. Estratégias históricas, focadas em um único produto, como extração de quitina, produção de óleo de peixe ou farinha, tendem a ter desempenho inferior por não explorarem todo o espectro de moléculas. A proposta mais recente é o aproveitamento em cascata: recuperar primeiro compostos mais valiosos e sensíveis (como pigmentos e óleos ricos em ômega-3) com métodos mais suaves e “verdes”, avançando depois para proteínas e biopolímeros e, por fim, para produtos de maior volume, como combustíveis ou fertilizantes.
No campo tecnológico, o artigo compila avanços em extração de baixo impacto, como CO2 supercrítico, solventes eutéticos profundos e processos assistidos por micro-ondas ou ultrassom, voltados a reduzir ou minimizar o uso de solventes na recuperação de compostos delicados. Também destaca o uso de fermentação microbiana e consórcios sintéticos, com bactérias lácticas, leveduras engenheiradas ou culturas mistas, para combinar etapas como desmineralização, desproteinização e conversão em produtos como quitina, peptídeos ou polihidroxialcanoatos (biopolímeros).
Outra frente é a integração de plataformas bioquímicas e termoquímicas. A revisão aponta a liquefação hidrotérmica como opção para converter lodos residuais em biocru, enquanto a digestão anaeróbia é citada como mecanismo para “fechar o ciclo” energético, com a geração de energia para a própria biorrefinaria. A consolidação dessas rotas, segundo o texto, tem sido cada vez mais apoiada por avaliações de ciclo de vida e análises tecnoeconômicas, usadas para mapear trade-offs e identificar caminhos com maior probabilidade de aplicação industrial.
Apesar do avanço científico, a revisão elenca obstáculos que travam a transição para escala industrial: a heterogeneidade da biomassa (espécies, sazonalidade, habitat e variabilidade do processamento) dificulta controle de processo, consistência de qualidade e conformidade regulatória; os custos de capital para extração e secagem e a logística elevam barreiras; e as regras para aplicações alimentícias e terapêuticas exigem mitigação de contaminantes, rastreabilidade e certificações. Além disso, parte das estratégias microbianas e enzimáticas perde estabilidade ou eficiência quando sai do laboratório, indicando lacunas de robustez e previsibilidade de engenharia. Ainda assim, o trabalho sustenta que a combinação de rotas integradas e aproveitamento em cascata pode organizar esse ecossistema tecnológico e acelerar a tradução industrial do que hoje é, em grande medida, resíduo.
