Carne de jacaré do Lago do Cuniã avança rumo à Indicação Geográfica

A carne de jacaré produzida por comunidades tradicionais da Reserva Extrativista Lago do Cuniã, em Porto Velho, Rondônia, avançou para uma etapa decisiva no processo de obtenção da Indicação Geográfica. Entre 1º e 6 de setembro, começa uma nova fase de construção técnica voltada a comprovar que o produto reúne características próprias associadas ao território, ao modo de produção e à identidade local.

Se o reconhecimento for aprovado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o produto passará a integrar o grupo de alimentos brasileiros protegidos por origem, como cafés, queijos, vinhos e mel. Para as comunidades da reserva, o selo pode significar mais do que diferenciação comercial: abre caminho para agregar valor, ampliar mercados e reforçar uma cadeia produtiva ligada à conservação da fauna amazônica.

O ponto central do projeto é o manejo sustentável de jacarés, realizado sob autorização e monitoramento de órgãos ambientais. A atividade se diferencia da caça predatória por seguir critérios técnicos de acompanhamento das populações, controle sanitário e rastreabilidade. Na prática, o sistema busca equilibrar o controle populacional dos crocodilianos com a geração de renda para famílias que vivem na unidade de conservação.

A governança técnica envolve parâmetros estabelecidos por instituições como ICMBio e Ibama. Além da carne, a cadeia também prevê o aproveitamento do couro, o que aumenta o valor agregado da produção e reduz desperdícios. Essa combinação entre controle ambiental, regularidade sanitária e uso integral do recurso é um dos elementos que sustentam a candidatura à Indicação Geográfica.

A construção do pedido teve início com um diagnóstico realizado em 2025 e agora entra na fase de organização dos documentos que devem demonstrar a relação entre o território, o processo produtivo e os atributos diferenciados da carne. Entre os benefícios esperados estão a valorização comercial, o fortalecimento da identidade amazônica do produto, a abertura de novos mercados, maior competitividade nacional, estímulo ao turismo gastronômico e aumento da renda das comunidades extrativistas.

Embora ainda ocupe um nicho, a proteína de jacaré já desperta interesse de chefs, restaurantes especializados e consumidores em busca de produtos diferenciados. O alimento é descrito por seu baixo teor de gordura, alto teor de proteínas, textura macia e sabor suave, frequentemente associado ao de peixes de carne firme ou aves. Em feiras agropecuárias e gastronômicas de Rondônia, a carne chamou atenção justamente por estar vinculada ao manejo sustentável da fauna amazônica.

A profissionalização da cadeia ganhou novo impulso com a regularização do abatedouro utilizado pela cooperativa local. Em 2026, o empreendimento recebeu licença de operação ambiental, criando condições para ampliar a produção dentro das exigências legais e sanitárias. O processo contou com apoio técnico de instituições parceiras voltadas ao fortalecimento da bioeconomia regional e à ampliação da comercialização.

Na Resex Lago do Cuniã, o manejo de jacarés se soma a outras atividades desenvolvidas pelas comunidades, como pesca manejada, produção de farinha, castanha-do-brasil, açaí e demais produtos florestais. Caso a Indicação Geográfica seja concedida, Rondônia poderá consolidar um diferencial competitivo baseado em produção sustentável, manejo responsável da fauna e valorização dos produtos da sociobiodiversidade amazônica.

Fonte: Carne de jacaré da Amazônia pode conquistar selo nacional e abrir uma nova era para a bioeconomia brasileira

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