A bioeconomia no Brasil entrou em uma fase mais pragmática no rastro da COP30, com expectativa de avanço na implementação já neste ano, segundo avaliações de especialistas do setor. Para Talita Pinto, diretora executiva do Observatório de Conhecimento e Inovação em Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas, os próximos cinco anos serão decisivos para o país consolidar liderança associada à biodiversidade e ao desenvolvimento econômico sustentável, à medida que iniciativas deixam de ser apenas um conceito promissor e passam a buscar tração em mercados e acesso a financiamento.
Essa transição, segundo Pinto, depende de um tripé: políticas públicas, instrumentos financeiros e a criação de métricas capazes de demonstrar vantagens econômicas. Em Belém, a COP30 foi usada como plataforma para anúncios que tentam transformar princípios em ação, como o lançamento da Global Bioeconomy Challenge. Também foi criado o programa Coopera+ Amazônia, com R$ 107 milhões em recursos via BNDES e Fundo Amazônia para apoiar cooperativas locais de agricultores. No nível estadual, o governo do Amazonas anunciou um plano voltado a fortalecer produção sustentável, com ênfase em comunidades tradicionais e na valorização da floresta em pé.
O pano de fundo é um setor que cresceu pouco ao longo da última década, apesar do aumento de relevância na agenda. Entre 2010 e 2023, a expansão foi inferior a 1% ao ano e representava cerca de 20% do Produto Interno Bruto, segundo dados compilados em 2024 pelo Observatório. Em um cálculo específico do chamado PIB da Bioeconomia (PIB-Bio), que segmenta atividades primárias, bioindústria, bioenergia e cadeias industriais de base biológica com metodologia alinhada à usada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o resultado foi de R$ 2,7 trilhões em 2023, equivalentes a 25,3% da atividade econômica nacional, ante 20,2% em 2010.
Os próximos números devem incorporar novas variáveis em monitoramento, como renda de comunidades impactadas e sequestro de carbono, a serem consolidadas em um relatório previsto para 2026. Para Pinto, o avanço do governo na agenda reduz o risco de o tema ficar restrito à retórica, ao amarrá-lo a diretrizes que deem lastro ao seu valor econômico, ambiental e social. Ela cita como marco o decreto de junho de 2024 que instituiu a Estratégia Nacional de Bioeconomia, base para estruturar o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia e a Política Nacional de Bioeconomia, aprovada em comissão do Senado em outubro de 2025 e em fase final de tramitação.
Na leitura do Observatório, a COP30 funcionou como catalisador para deslocar o debate do campo aspiracional para uma agenda operacional, com três exigências: escalar cadeias com integridade socioambiental; mobilizar capital com governança e métricas auditáveis; e entregar resultados verificáveis em áreas como segurança alimentar, abastecimento e redução de vulnerabilidades sociais. Pinto afirma que a etapa atual é de institucionalização e pode influenciar a agenda eleitoral de 2026, especialmente por iniciativas que buscam inserir o tema no planejamento orçamentário e em metas fiscais.
Uma tendência destacada é a convergência entre bioeconomia e políticas de abastecimento e segurança alimentar. A economista aponta que diretrizes como a Política Nacional de Abastecimento podem ampliar compras públicas oriundas da socio-bioeconomia, reforçando inclusão produtiva e oferta, especialmente em áreas urbanas e periféricas. Nesse desenho, o cooperativismo aparece como infraestrutura social para reduzir custos de transação, agregar oferta, melhorar rastreabilidade e organizar governança coletiva de pequenos produtores.
O texto também reúne projeções e sinais de mercado. Um estudo da Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil) estima que o setor poderia adicionar entre US$ 100 bilhões e US$ 140 bilhões à economia brasileira, impulsionado por inovação de maior valor agregado a partir de 2032. Em escala global, a Nature Finance estimou em 2024 que a bioeconomia valia entre US$ 4 trilhões e US$ 5 trilhões e poderia chegar a US$ 30 trilhões em 2050. Rodrigo Spuri, diretor de conservação da The Nature Conservancy no Brasil, ressalta que a bioeconomia não é solução única para conservar florestas, mas pode compor uma estratégia de geração de valor na Amazônia e em outros biomas, como o Cerrado, levando produtos ao mercado a partir do capital natural.
No ecossistema amazônico, o Amazon Impact Accelerator completou cinco anos em 2025 com 16 empresas ativas no portfólio, 29 em formação, 52 negócios apoiados e cerca de 500 startups avaliadas. Gabriela Souza, líder de operações de novos negócios do Idesam e gerente de operações da iniciativa Amaz, afirma que duas frentes têm puxado inovação na região: alimentos e cosméticos, com produtos de maior valor agregado e desafios de penetração de mercado. Para ela, o ponto de virada passa por investimento em pesquisa e desenvolvimento para estruturar cadeias que, além de matéria-prima e bens finais, entreguem serviços, incluindo o desenvolvimento de biofábricas. Coordenada pelo Idesam, a Amaz foi a única iniciativa brasileira finalista do prêmio internacional GAEA Awards de 2026, e planeja ampliar o fluxo de recursos para a bioeconomia com novos modelos de financiamento e incubação de empreendimentos comunitários baseados em ciência e tecnologia. O texto cita ainda dado do Atlas de Bioeconomia Inclusiva da Embrapa: o estado do Amazonas teria 93,22% de cobertura florestal, atributo colocado como ativo central para essa agenda.
Fonte: Bioeconomy enters a new phase and seeks to expand its footprint
