Nas últimas décadas, a mudança do uso da terra vem reforçando o papel da agricultura brasileira no centro da crise climática global. Com 86% das emissões acumuladas do país ligadas a práticas como desmatamento e expansão de monoculturas exportadoras, a atividade agropecuária nacional continua sendo protagonizada por um modelo de produção que confronta os limites ecológicos do planeta.
No entanto, uma nova pesquisa desenvolvida por Bruno Feltrin Puttini no Programa de Pós-Graduação em Política Científica e Tecnológica da Unicamp aponta estratégias disruptivas no setor. A dissertação “Sistemas Agroflorestais e Mudanças Climáticas” mapeia como os sistemas agroflorestais biodiversos — especialmente aqueles baseados em espécies nativas e em sucessões ecológicas — podem representar uma alternativa viável para alinhar restauração ecológica e produção agrícola em um ambiente de crescentes eventos climáticos extremos.
A pesquisa adotou uma abordagem metodológica abrangente, composta por revisão de escopo da literatura científica e entrevistas de campo com agricultores e um gestor público. Foram analisados 67 documentos (artigos, dissertações e teses) e conduzidas oito entrevistas em diferentes regiões do estado de São Paulo. O foco foi compreender como esses sistemas respondem e se adaptam às pressões ambientais atuais.
Os dados coletados destacam a intrínseca relação dos sistemas biodiversos com processos de regeneração ecológica como ciclagem de nutrientes, aumento da fertilidade do solo, acúmulo de carbono e oferta de serviços ecossistêmicos. Agricultores relataram que a diversidade vegetal, o sombreamento e o manejo da matéria orgânica proporcionam maior resiliência a secas severas, ondas de calor e geadas, além de garantir melhores condições de trabalho e mitigação de pragas.
Por outro lado, há entraves importantes à ampla adoção desses sistemas. Os entrevistados indicaram a falta de mecanização e tecnologia específica como uma das principais barreiras à escalabilidade. A complexidade do manejo, a escassez de mão de obra qualificada e as dificuldades na integração com canais de comercialização são desafios persistentes. Do ponto de vista institucional, há reconhecimento da importância dos SAFs por parte de gestores públicos, mas ainda faltam modalidades de crédito e programas de assistência técnica compatíveis com os tempos e dinâmicas desses sistemas.
A pesquisa também aponta que as políticas climáticas internacionais às quais o Brasil se comprometeu, como as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas), podem encontrar nos SAFs biodiversos uma ferramenta estratégica para recuperação de 12 milhões de hectares de áreas degradadas. No entanto, como conclui Puttini, a transição para uma agricultura de base ecológica exige “uma reorganização não apenas tecnológica, mas social e institucional, que rompa com a lógica de externalidades ambientais hoje dominante”.
Em síntese, os sistemas agroflorestais biodiversos emergem nesta pesquisa como uma alternativa concreta frente ao colapso climático que já altera diretamente os padrões de produção agrícola. Eles incorporam um tipo de valor raramente contabilizado pelas métricas convencionais: sua capacidade de regeneração e adaptação diante de um planeta em rápida transformação.
