O Google vai adquirir 200 mil toneladas em créditos de remoção de carbono por meio de um novo acordo com a startup brasileira Mombak, que trabalha com reflorestamento de pastagens degradadas na Amazônia. Segundo apuração da Reuters, essa é a maior iniciativa do tipo da gigante de tecnologia até hoje, e marca uma mudança para créditos que exigem comprovação científica rigorosa e benefícios ambientais de longo prazo.
A decisão de ampliar o investimento na Mombak — quatro vezes maior que o contrato anterior firmado em 2024 — responde à necessidade do Google de compensar suas emissões, sobretudo aquelas ligadas ao consumo elevado de energia em centros de dados para inteligência artificial. Dados da empresa mostram que suas emissões de escopo 2, ligadas ao uso de eletricidade, triplicaram desde 2020 e alcançaram 3,1 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2024.
Ao contrário de opções como os créditos REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação), a aposta no plantio de árvores é considerada, segundo o executivo do Google Randy Spock, “a tecnologia mais desprovida de riscos para remover carbono da atmosfera”. A fotossíntese, destaca ele, permanece como uma solução comprovada na mitigação climática.
Apesar da existência de créditos REDD que premiam por evitar a destruição da floresta, esse mercado tem enfrentado críticas e denúncias de fraudes, inclusive no Brasil. Por isso, o Google tem evitado esse tipo de crédito, optando por projetos como o da Mombak, que foca na restauração ativa de vegetação nativa e cuja credibilidade foi reconhecida por um consórcio de grandes compradores chamado Symbiosis Coalition.
Formada por empresas como Meta, Salesforce, Microsoft, McKinsey e agora também Bain & Company e REI Co-op, a coalizão estabeleceu padrões rigorosos para os créditos de carbono baseados na natureza. De 185 projetos avaliados, apenas o da Mombak conseguiu aprovação até o momento. Isso permite que o projeto brasileiro posicione-se como referência no nascente mercado de remoção de carbono por reflorestamento.
O apoio do Google coloca a Mombak em evidência em um mercado balizado por escassez de projetos com alto padrão técnico e transparência. Esses critérios impulsionaram os valores no setor: enquanto créditos REDD podem custar menos de US$ 10 por tonelada de carbono, créditos como os gerados pela Mombak superam os US$ 50 e, por vezes, atingem até US$ 100 por tonelada.
Segundo Gabriel Silva, cofundador e CEO da Mombak, há um movimento claro de “fuga para a qualidade” no setor. Muitos compradores, afirma, sequer sabiam em que tipo de crédito estavam investindo no passado, o que resultou em controvérsias quanto à efetividade e legitimidade de vários projetos.
O Brasil lidera atualmente em número de projetos submetidos à avaliação da coalizão Symbiosis, e a expectativa é que mais iniciativas locais conquistem a aprovação técnica em breve. O país também está no centro do debate climático neste mês ao sediar a COP30, em Belém, onde medidas como a criação de um fundo global de US$ 5 bilhões para florestas tropicais foram anunciadas por Brasil, Noruega e Indonésia.
A escassez de ofertas de alta qualidade e a crescente disposição de empresas em pagar mais por créditos confiáveis criam uma janela estratégica para o avanço da bioeconomia no Brasil. Como aponta Silva, há espaço para reduzir custos à medida que as startups ganham eficiência, mas, por ora, a demanda supera amplamente a oferta.
Fonte: Google deal makes Amazon reforestation its top source of carbon removal credits
