Um fundo inspirado no TerraFund, iniciativa que ganhou escala no continente africano, anunciou R$ 18 milhões para financiar dez projetos no Pará com foco na conexão entre regeneração da terra e fortalecimento da economia local. O aporte mira uma lacuna recorrente em agendas de restauração: o financiamento de quem já opera na ponta, com execução em campo e capacidade de transformar recomendações técnicas em resultados mensuráveis.
Batizado de Fundo Flora, o mecanismo combina doações e empréstimos concessionais para ampliar a atuação de 26 organizações, entre cooperativas, organizações da sociedade civil e pequenas empresas. A iniciativa foi idealizada pelo WRI Brasil e tem gestão financeira da Sitawi Finanças do Bem, com desenho voltado a reduzir o risco e viabilizar o avanço de projetos que enfrentam restrições de capital na fase mais crítica: a implementação.
Os projetos selecionados adotam técnicas como Regeneração Natural Assistida (RNA) e Sistemas Agroflorestais (SAFs), buscando recompor cobertura vegetal e revitalizar o solo ao mesmo tempo em que estruturam cadeias produtivas já relevantes no estado, como açaí, cacau, castanha-do-Pará e óleos vegetais. A lógica é acoplar restauração e produção, de forma a sustentar a permanência das iniciativas após o ciclo inicial de financiamento.
Para garantir rastreabilidade do desempenho e prestação de contas, o programa prevê monitoramento rigoroso com um sistema desenvolvido pelo WRI que integra dados de campo e sensoriamento remoto. A combinação busca dar transparência ao uso dos recursos e credibilidade às entregas, em especial quando o objetivo é provar que o investimento em restauração pode ser acompanhado em métricas verificáveis.
Entre os dez selecionados, a Abrapo atuará em sete municípios com a meta de implementar 1.000 hectares por regeneração natural, organizando núcleos de sementes para abastecer 18 viveiros e com expectativa de beneficiar mais de mil pessoas. Em Marabá, a associação Conduru, criada por jovens de assentamentos, planeja restaurar 40 hectares por meio de viveiros comunitários com foco no protagonismo de mulheres e da juventude rural.
No oeste do estado, a CCAMPO (Santarém e região) implementará SAFs de açaí e cupuaçu como piloto para gerar renda e apoiar a permanência de jovens no campo, enquanto a COAFRA (Castanhal) vai estabelecer um viveiro em parceria com uma escola local, com capacitação de mulheres em manejo agroflorestal e empreendedorismo. Em Parauapebas, a Florestas Engenharia projeta um viveiro modular com capacidade de chegar a 4 milhões de mudas por ano até 2030, sinalizando uma frente de infraestrutura para abastecer projetos de restauração em escala.
Outras iniciativas combinam recomposição ambiental e estrutura produtiva: a FortparaOil (Acará) prevê restaurar 305 hectares e ampliar a estrutura industrial para processamento de óleos vegetais; o Instituto Floresta Tropical (Bragança e região) recuperará 60 hectares, incluindo áreas atingidas por incêndios, em parceria com comunidades quilombolas; a Tribo Superfoods (Igarapé-Miri) vai diversificar antigas monoculturas de açaí com cacau, cupuaçu e castanha; a Verde Novo (Irituia) estruturará uma rede comunitária de coletoras de sementes para restaurar 40 hectares; e a Zeno Nativo (Acará) implementará 37 hectares de agroflorestas, reforçando rastreabilidade e geração de renda justa nas cadeias do cacau fino e da castanha.
Fonte: Bioeconomia paraense recebe aporte de R$ 18 milhões via Fundo Flora
