Falta de infraestrutura ameaça viabilidade da bioeconomia na Amazônia

Infraestrutura inadequada e atrasos logísticos estão freando o potencial da bioeconomia na Amazônia, segundo estudo do Banco Mundial que analisou Brasil, Peru e Colômbia. Produtos emblemáticos como açaí, castanha-do-Brasil, pirarucu e cacau enfrentam sérios entraves de transporte, energia e conectividade digital logo nas primeiras etapas de suas cadeias produtivas, comprometendo a geração de renda, o bem-estar das comunidades e a própria viabilidade da floresta em pé.

A pesquisa destaca que até 80% do território amazônico carece de acesso confiável à energia elétrica, o que inviabiliza a instalação de refrigeração e agroindústrias locais. Só no estado brasileiro de Roraima, comunidades chegam a ficar até 40 dias por ano sem luz. Sem energia, o pirarucu pode perder até metade de seu valor por deterioração durante o transporte; situação semelhante ocorre com o açaí em áreas distantes dos centros urbanos.

As limitações de infraestrutura portuária e a ausência de instalações adequadas para carga e refrigeração em pequenos portos agravaram ainda mais a situação. Carga e descarga são feitas, muitas vezes, por rampas improvisadas e caminhos de terra, especialmente durante os intensos períodos de seca. Nessas circunstâncias, o tempo de viagem aumenta, o risco de acidentes cresce e a qualidade dos produtos decai, impactando negativamente os ganhos dos produtores locais.

Embora os rios sejam a principal via de transporte regional, uma série de fatores tem comprometido a navegação fluvial. Os custos operacionais elevados, embarcações obsoletas, distâncias extensas, e fenômenos como secas severas têm impedido a fluidez dos fluxos logísticos. Em 2023, por exemplo, 90% das embarcações no estado do Amazonas enfrentaram restrições de navegação devido à estiagem prolongada.

Mesmo nos locais onde existe infraestrutura, ela é muitas vezes precária: sistemas de geração de energia são baseados em diesel, caros e poluentes; escolas e postos de saúde têm funcionamento intermitente; e a conectividade digital é baixa, especialmente nas áreas classificadas como “Amazônia Profunda“. Isso limita o acesso a informações de mercado, serviços bancários digitais, rastreabilidade dos produtos e até mecanismos de combate à pesca ilegal.

A ausência de intermodalidade – ou seja, de integração entre os modais fluvial, rodoviário e digital – separa produtores do processamento e das cadeias de valor. Isso impede que o valor gerado pelos produtos da floresta permaneça nas comunidades que os extraem, fortalecendo uma lógica econômica extrativista e centralizadora, com ganhos concentrados em centros urbanos da região amazônica ou fora dela.

Para mitigar esses impactos, o relatório propõe uma abordagem baseada em hubs de desenvolvimento integrados, que conectem unidades de processamento locais à infraestrutura logística e digital. Investimentos em energia renovável descentralizada, como solar e biomassa, são apontados como caminhos promissores, embora enfrentem entraves regulatórios e financeiros. A proposta inclui ainda embarcações com capacidade de processamento a bordo e a modernização de portos fluviais regionais.

O estudo enfatiza que o modelo de bioeconomia tradicional – de base comunitária e em pequena escala – é o mais alinhado com a conservação da floresta e a valorização dos conhecimentos locais. Ao contrário dos modelos industriais de plantio em larga escala, ele evita o ciclo de esgotamento ambiental típico de economias extrativas. No entanto, para se consolidar, essa bioeconomia requer equidade infraestrutural, sob risco de se tornar viável apenas em centros urbanos e, portanto, desconectada das comunidades que dependem da floresta para sobreviver.

A análise também apresenta projeções otimistas: estima-se que os empregos no setor possam dobrar até 2050, o equivalente à criação de 42 mil novos postos de trabalho. A condição, porém, é clara: sem resolver o déficit de infraestrutura, essa expansão pode não beneficiar os povos da floresta, perpetuando desigualdades e fragilizando a resiliência socioambiental da região.

Fonte: A Place-Based Infrastructure Approach for Bioeconomies in the Amazon Region

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