Um estudo coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) revelou índices preocupantes de mercúrio em pescadores e moradores do entorno da laguna Mundaú, em Maceió (AL). As análises de sangue e urina de 60 pessoas que vivem da pesca e do consumo cotidiano de mariscos indicaram contaminação significativamente superior à média urbana local, levantando alertas sobre riscos à saúde metabólica e cardiovascular.
Entre os contaminantes detectados, o mercúrio inorgânico foi o mais alarmante. A média de concentração do metal no sangue dessas pessoas foi de 3,4 microgramas por litro, quase quatro vezes maior que a da população controle (0,93 µg/L), com um pico de 19 µg/L em um dos participantes. Apesar de ainda estarem abaixo do limite máximo permitido pela legislação brasileira, de 20 µg/L, esses valores ultrapassam os intervalos recomendados por organismos internacionais, como a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), que sugere limite inferior a 6 µg/L para populações que consomem peixe regularmente.
Os autores destacam que os efeitos fisiológicos da exposição prolongada ao mercúrio já são visíveis: alterações na morfologia e na função dos glóbulos vermelhos indicam tendência à anemia; biomarcadores como triglicérides, ureia e creatinina encontram-se elevados, sinalizando risco cardiovascular elevado e possível disfunção renal. Além disso, relatos de hipertensão arterial (20%) e diabetes (10%) foram comuns entre os moradores das margens da laguna — os mesmos índices observados na população controle, mas neste grupo com agravamento potencial devido à contaminação tóxica.
A interligação da laguna com o mar e com canais secundários de efluentes domésticos e industriais foi identificada como a principal possível causa da contaminação. A laguna recebe águas poluídas de Maceió e das cidades vizinhas, intensificando a concentração de metais pesados, entre eles o mercúrio. O sururu, marisco típico da região e base da alimentação local, representa uma das principais rotas de exposição ao contaminante.
O estudo se baseou em amostras de sangue e urina coletadas de 125 pessoas: 60 expostas diretamente ao ambiente contaminado por dependerem da laguna para alimentação e renda, e 65 residentes em outras áreas da capital com características socioeconômicas semelhantes. Os autores alertam que, mesmo numa exposição considerada “moderada”, o mercúrio — especialmente em sua forma inorgânica — pode causar dano oxidativo sistêmico, um mecanismo associado à progressão de várias doenças crônicas.
Essas conclusões foram reforçadas por um experimento prévio da equipe com camundongos, em que a exposição a baixos níveis de mercúrio inorgânico agravou significativamente condições preexistentes como colesterol elevado e aterosclerose. Foram observadas lesões em órgãos vitais e inclusive no tecido cerebral.
A pesquisa foi conduzida no âmbito de um convênio entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), sendo publicada no periódico Journal of Hazardous Materials. Os autores defendem que os resultados devem orientar políticas públicas de saúde e de controle ambiental na região.
Como desdobramento imediato, os pesquisadores sugerem a implementação de programas de monitoramento da saúde da população local, bem como políticas para limitar ou eliminar fontes de contaminação, especialmente aquelas relacionadas ao despejo de efluentes não tratados. Em futuras etapas, o grupo pretende investigar a presença e os efeitos combinados de outros metais tóxicos que também afetam a laguna.
Contudo, um dos locais antes monitorado pelos pesquisadores, o tradicional bairro de Bebedouro, já não pode mais ser acessado para análises. Ele foi evacuado devido ao risco de colapso do solo causado por mineração de sal-gema, o que, segundo os pesquisadores, agrava o cenário de vulnerabilidade ambiental da região.
Além das implicações locais, o estudo levanta discussões mais amplas sobre a eficácia das normas brasileiras de segurança ambiental e sobre os impactos de longo prazo da exposição humana a contaminantes amplamente difundidos em ecossistemas costeiros. A ausência de um controle rigoroso sobre mudanças metabólicas e bioacumulação de metais tóxicos em populações vulneráveis pode gerar danos cumulativos e silenciosos.
Fonte: Pescadores da laguna Mundaú, em Maceió, possuem níveis de mercúrio mais altos do que a média
