O avanço dos produtos biológicos no setor agrícola tem sido constante, mas ainda enfrentam obstáculos significativos. Um estudo recém-publicado analisou como algumas das maiores empresas fornecedoras de insumos agrícolas estão respondendo a essa mudança tecnológica. A pesquisa identificou cinco estratégias principais adotadas por empresas incumbentes para integrar soluções biológicas em seus portfólios: expansão de portfólio, acordos de marketing e distribuição, complementaridade tecnológica, desenvolvimento de produtos e exploração de janelas tecnológicas.
Os produtos biológicos, como biofertilizantes, biocontrole e bioestimulantes, são alternativas mais sustentáveis aos fertilizantes e pesticidas sintéticos. No entanto, ainda representam uma fração pequena do mercado total e apresentam desafios técnicos e comerciais para sua adoção em grande escala. Por isso, entender o comportamento estratégico das grandes empresas do setor é crucial para avaliar o potencial de crescimento desses produtos.
Segundo o estudo, as empresas líderes — como Bayer, Syngenta e Corteva — estão usando diferentes combinações de estratégias para enfrentar as dificuldades inerentes ao universo dos produtos biológicos. A aquisição de empresas especializadas tem sido uma forma rápida de expandir seus portfólios e responder à demanda por práticas agrícolas mais sustentáveis. Essas aquisições envolvem o comprometimento de grandes somas de recursos e mudanças na estrutura organizacional.
Outra abordagem recorrente são os acordos de distribuição, em que as incumbentes comercializam produtos biológicos desenvolvidos por terceiros sem assumir os riscos de P&D. Essa estratégia oferece agilidade de entrada no mercado e aproveita a infraestrutura já estabelecida pelas multinacionais. No entanto, o foco permanece em soluções que podem ser rapidamente disponibilizadas aos agricultores.
No caso das complementaridades tecnológicas, as parcerias com empresas biológicas têm foco em pesquisas conjuntas, combinando capacidades técnicas distintas. Isso representa um compromisso de longo prazo, pois as soluções resultantes ainda estão em fase de desenvolvimento e exigem aprendizado conjunto. Essa abordagem busca criar plataformas tecnológicas integradas e adaptar os modelos de negócio baseados, historicamente, em insumos químicos padronizados.
A estratégia de desenvolvimento específico de produtos baseia-se na colaboração com empresas menores para criar soluções sob medida. Já o investimento em empresas que ainda estão em fase inicial de desenvolvimento tecnológico, o que o estudo chama de “janela tecnológica”, representa apostas mais especulativas. Essas estratégias não visam retorno imediato, mas posicionam as incumbentes para capturar valor no futuro caso essas tecnologias se consolidem.
Os dados revelam que, entre 2009 e 2023, ocorreram cerca de 80 interações estratégicas entre empresas incumbentes e firmas de biológicos, sendo 32% aquisições, 39% parcerias e 29% investimentos de capital. As relações são mais frequentes no setor de agroquímicos do que no de fertilizantes, refletindo as capacidades complementares de cada segmento.
Mesmo com o envolvimento crescente das incumbentes, persistem desafios substanciais. Os produtos biológicos têm eficácia e escalabilidade menores em comparação aos insumos químicos, demandam treinamento dos vendedores e exigem novas estratégias comerciais. Além disso, a adoção por parte dos agricultores ainda é limitada, e há complexidades regulatórias à entrada de novos produtos no mercado.
Para os formuladores de políticas públicas, o estudo sinaliza que a complementaridade entre produtos químicos e biológicos tende a prevalecer. A regulação deve, portanto, estimular a concorrência e reduzir barreiras de entrada para pequenas empresas. Também é fundamental investir em programas de extensão rural que auxiliem os agricultores na adoção dessas novas tecnologias, muitas vezes mais complexas de aplicar.
Por fim, o estudo destaca o papel das grandes empresas em definir o rumo da inovação tecnológica na agricultura. A forma como elas decidem explorar, desenvolver ou assimilarem as soluções biológicas determinará não apenas o ritmo de sua adoção, mas também a estrutura de mercado futura. A convergência entre biotecnologia, plataformas digitais e edição genética promete remodelar o setor, colocando novos desafios tanto para empresas quanto para reguladores.
Fonte: Industrial Dynamics and Business Strategies in the Emergence of Agricultural Biological Inputs
