A gestão de resíduos agroindustriais tem sido um desafio persistente no setor rural, mas um estudo recente realizado na Comarca Lagunera, região do norte-centro do México, lança luz sobre soluções práticas baseadas na bioeconomia circular. A pesquisa, que comparou experiências locais com modelos internacionais, enfatizou a necessidade de integração entre digestão anaeróbica, compostagem e valorização de biomassa para maximizar o uso de resíduos orgânicos.
Em propriedades leiteiras da região, os autores avaliaram um processo de quatro etapas que começa com a coleta de esterco e águas residuárias, passa pela produção de biogás e energia, e termina com o uso do resíduo sólido como fertilizante orgânico e do líquido tratado como água para irrigação. A adaptação regional do modelo biológico da Fundação Ellen MacArthur mostra como pequenas operações podem gerar energia, fertilizante e água de forma sustentável.
Apesar dos avanços, o estudo aponta para limitações técnicas e obstáculos econômicos na adoção plena de um sistema de bioeconomia circular. Entre os desafios identificados está a necessidade do desenvolvimento de cadeias de suprimento eficientes para a coleta de materiais valiosos antes que sejam degradados. Esses fluxos de resíduos precisam ser organizados não apenas geograficamente, mas também em função da sua usabilidade e valor potencial.
Uma das abordagens discutidas envolve a extração de compostos bioativos de resíduos agrícolas antes da digestão anaeróbica. Segundo Fermoso et al., esses compostos têm alta viabilidade comercial, mas sua extração depende da demanda do mercado e da capacidade técnica dos produtores rurais. No caso da Comarca Lagunera, esse processo ainda é considerado economicamente inviável em função da escala local.
A integração entre digestão anaeróbica e compostagem também é considerada chave. O modelo proposto por Cucina (2023), conhecido como sistema ADIC, propõe tratamento integrado de resíduos orgânicos para gerar energia e biofertilizantes. Contudo, os autores alertam que ainda são necessários estudos em grande escala para validar a viabilidade ambiental e econômica dessa tecnologia, especialmente no uso de lodos de estações de tratamento como matéria-prima.
A categorização dos resíduos – recicláveis e compostáveis, não recicláveis e perigosos – também foi abordada. Ogbu e Okey (2023) destacam que a separação correta desses fluxos é fundamental para garantir uma gestão eficaz. O sucesso dessas iniciativas está condicionado à criação de cadeias logísticas locais que minimizem perdas e aumentem a eficiência na transformação dos resíduos em novos produtos.
Outro ponto-chave está na aplicação da análise do ciclo de vida (ACV), discutido por Yaashikaa et al. Esse método permite avaliar os impactos ambientais desde a origem dos resíduos até o produto final. A ACV é fundamental para mensurar o real benefício ambiental dos processos adotados, considerando fatores como consumo energético, uso de insumos e multifuncionalidade dos sistemas agroindustriais.
A principal conclusão do estudo é que modelos integrados e regionais de bioeconomia circular podem transformar a realidade da gestão de resíduos agroindustriais. No entanto, a adoção dessas soluções depende de estratégias logísticas, apoio técnico, escalabilidade e avaliações econômicas que considerem o ciclo completo da biomassa. A valorização efetiva dos resíduos pode ser um caminho para maior sustentabilidade ambiental e retorno econômico para pequenos e médios produtores.
Com base nas evidências reunidas entre 2017 e 2024, os autores apontam para a necessidade de maior investimento em pesquisa aplicada e infraestrutura para manter a circularidade dos recursos e fortalecer a resiliência dos sistemas agroindustriais. Sem isso, o potencial dos resíduos como insumo para energia renovável, fertilizantes e biomateriais pode continuar subutilizado.
Fonte: Agro-industrial waste management: a circular bioeconomy approach
