Estudo global com salgueiro energético identifica fatores cruciais que impactam produtividade da biomassa

Uma análise inédita com base em dados globais reuniu mais de 3.400 entradas de ensaios de campo com salix (salgueiro), revelando os principais fatores que influenciam a produtividade de biomassa desse cultivo energético de segunda geração. Publicado na revista GCB Bioenergy, o estudo liderado por Antonio Castellano Albors da Universidade de Aberdeen combina meta-análise e modelos estatísticos para identificar variáveis ambientais, de manejo e genéticas associadas ao rendimento do salgueiro cultivado em sistema de corte em rotação curta (SRC, na sigla em inglês).

O banco de dados global compila informações de 99 locais de pesquisa em diferentes zonas climáticas, concentrando-se nos países do hemisfério norte, como Reino Unido, Canadá e Estados Unidos. Com isso, os cientistas puderam cruzar 66 variáveis independentes — incluindo temperatura, precipitação, densidade de plantio, uso de fertilizantes e diversidade genética — para entender o desempenho produtivo em toneladas de matéria seca por hectare por ano (Mg DM ha−1 ano−1).

Entre todos os dados analisados, os melhores rendimentos anuais médios foram encontrados no Canadá (10,6 Mg DM ha−1 ano−1), enquanto os mais baixos ocorreram nos Estados Unidos (6,7 Mg DM ha−1 ano−1). A média global foi de 9 Mg DM ha−1 ano−1, com apenas 20 genótipos (incluindo dois tipos de misturas) superando o limiar econômico de 10–12 Mg DM ha−1 ano−1. A cultivar ‘SX67’ (S. miyabeana), testada no Canadá, atingiu 32,7 Mg DM ha−1 ano−1, o valor mais alto registrado no estudo.

A diversidade genética, medida como grupo de diversidade do genótipo, emergiu como uma das variáveis mais importantes para a predição de produtividade em todos os modelos estatísticos baseados em random forest. Outros fatores críticos foram a precipitação acumulada durante a estação produtiva e a idade das raízes (indicando a estabilidade do sistema radicular). Os modelos explicaram até 63,65% da variância observada na produtividade, um desempenho robusto considerando a heterogeneidade de fontes de dados utilizadas.

O estudo também confirma que os caules de 1 ano produzem menos biomassa do que os de 2 e 3 anos no primeiro ciclo de colheita, alinhado a práticas recomendadas de manejo como o corte (‘coppicing’) após o primeiro ano. No entanto, essa recomendação não é absoluta: experimentos em climas mais rigorosos sugerem que evitar o corte pode elevar significativamente a produtividade, desafiando a padronização dessas práticas.

A escolha da época de plantio também é decisiva. Plantios realizados em março e abril renderam mais do que aqueles em maio e junho, devido à maior exposição à radiação solar. Da mesma forma, solos anteriormente usados como pastagem mostraram melhor desempenho do que aqueles de lavoura arável, mesmo sem aplicação de fertilizantes, indicando um potencial de uso em terras marginais com baixa intensidade de insumos.

Curiosamente, ao avaliar os estágios de melhoramento genético, o ganho de produtividade ao longo das gerações foi modesto. Genótipos europeus mostraram um aumento de até 1,8 Mg DM ha−1 ano−1 entre os estágios 1 e 2, mas nenhum ganho substancial nas etapas seguintes. Nos Estados Unidos e Canadá, onde a maioria dos genótipos ainda está no estágio 2, observou-se até mesmo declínio de produtividade nas etapas mais avançadas.

Sobre o uso de fertilizantes, os dados não mostraram benefício generalizado. Em terras aráveis, houve leve aumento na produtividade com adubação. Já em solos de pastagem, as maiores produtividades vieram de áreas sem aplicação, chamando atenção para os impactos ambientais e econômicos do manejo químico.

Entre os desdobramentos apontados pelos autores, destaca-se a capacidade da base de dados para gerar estimativas futuras sobre o rendimento de genótipos específicos em diferentes tipos de solo e clima, podendo servir como ferramenta de apoio à decisão para produtores. Além disso, os pesquisadores ressaltam que os benefícios ecossistêmicos da plantação de salgueiro — como controle de enchentes, sequestro de carbono e fitorremediação — também devem ser considerados para justificar sua adoção em larga escala.

Ainda que a produtividade média global esteja abaixo do patamar de viabilidade comercial, os dados oferecem um panorama realista das condições de campo. Em vez de suprimir os casos de falha ou baixa performance, esses foram incluídos no estudo para representar fielmente os desafios que um produtor enfrentaria em escala comercial.

O estudo entrega um recurso valioso para ajustar expectativas, planejar cultivos e, principalmente, conectar melhor o conhecimento de décadas de pesquisa com as necessidades práticas de implementação da bioenergia baseada em culturas perenes.

Fonte: A Global Short Rotation Coppice (SRC) Willow Dataset for the Bioeconomy: Implications for the Yield in the United Kingdom

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