Uma nova análise de fontes históricas e botânicas revelou informações inéditas sobre plantas nativas brasileiras descritas por Alexander von Humboldt e Aimé Bonpland durante sua expedição pelas Américas entre 1799 e 1804. Publicado na revista HiN, o estudo conduzido por Leopoldo C. Baratto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra que, mesmo impedidos de entrar oficialmente no Brasil por restrições da Coroa Portuguesa, os dois naturalistas descreveram dezenas de espécies da flora brasileira com base em observações feitas em países vizinhos, como Venezuela, Colômbia e Peru.
A pesquisa examinou cuidadosamente os volumes de Plantes Équinoxiales e os diários de viagem dos naturalistas. Dentre as 130 espécies descritas na obra, 27 são nativas do Brasil — incluindo a Bertholletia excelsa (castanha-do-pará), a Fridericia chica (crajirú), a Paullinia cupana (guaraná) e a Mikania guaco. São plantas que desempenham papéis importantes nas práticas tradicionais, na indústria farmacêutica, e na bioeconomia moderna voltada para o uso sustentável da biodiversidade.
Um exemplo emblemático é a castanha-do-pará. Bonpland a definiu como uma planta preciosa e descreveu suas sementes comestíveis e o óleo valorizado para iluminação. A planta era amplamente utilizada por populações indígenas e mencionada com entusiasmo pelos naturalistas em um momento crítico da expedição, quando escasseavam alimentos.
Outro destaque é o guaco, conhecido por suas propriedades medicinais. Embora Humboldt tenha relatado dificuldade em encontrá-lo espontaneamente, o uso da planta como antiofídico era amplamente disseminado graças ao trabalho de José Celestino Mutis. Curiosamente, no Brasil, espécies próximas como Mikania glomerata são utilizadas principalmente para tratar doenças respiratórias — uso que não aparece nos relatos históricos, mas foi posteriormente comprovado por estudos farmacológicos.
O estudo também mostra como o conhecimento tradicional influenciou diretamente a nomenclatura científica. Espécies como Fridericia chica, Mikania guaco e Paullinia cupana mantiveram os nomes indígenas como epítetos específicos, um indicativo do reconhecimento — ainda que parcial — do saber local pelos naturalistas europeus.
A análise de Baratto expõe ainda as contradições do olhar colonial. Bonpland, por exemplo, via os indígenas como instrumentos de domesticação de espécies, chamando-os de “inteligentes o suficiente” para coletar sementes e conduzir balsas. Em contrapartida, Humboldt mostrou respeito pelo conhecimento detido pelos povos indígenas, como ao relatar o preparo do curare por um homem que se dizia ‘o mestre do curare’ e exigia que seu nome fosse comunicado ao rei.
O potencial econômico e ecológico das plantas descritas é significativo. O estudo chama atenção para o papel dessas espécies em sistemas de produção baseados na conservação, como ocorre com o extrativismo da castanha-do-pará ou o uso de urucum na indústria cosmética. Além disso, a descrição de métodos de preparo ancestral, como o do guaraná ou do curare, podem inspirar novos processos biotecnológicos voltados à sustentabilidade.
Segundo o autor, a valorização do conhecimento tradicional contido nos diários e obras de Humboldt e Bonpland pode contribuir para políticas de conservação e desenvolvimento regional, especialmente na Amazônia. Tais registros históricos oferecem evidências de usos múltiplos e inovadores da flora nativa que permanecem vivos nas práticas atuais de comunidades tradicionais.
À medida que cresce o interesse global pelas relações entre biodiversidade e economia, a reinterpretação dessas fontes históricas ganha relevância. Ao resgatar as descrições etnobotânicas feitas há mais de dois séculos, o artigo contribui para aumentar a compreensão da riqueza biológica brasileira e das práticas culturais que mantêm essa diversidade viva, ampliando os horizontes da bioeconomia contemporânea.
