China aposta em plataformas piloto para transformar ciência em mercado na biomanufatura

Apesar de liderar em produção científica, a China ainda enfrenta importantes desafios para converter descobertas laboratoriais em produtos industriais. Segundo análise publicada por Jacopo Cricchio, o país asiático vem buscando, nos últimos anos, superar gargalos na escalabilidade da biomanufatura — setor que combina biotecnologia e biologia sintética para aplicações industriais — por meio da criação de plataformas pilot-scale.

Embora a China tenha alcançado destaque em áreas como biologia sintética (61% das publicações mais citadas em 2023), seu peso no mercado global de biotecnologia ainda é reduzido, representando apenas 4,8% em 2024. O contraste é marcante quando comparado com Estados Unidos (35%) e Europa (31%). O setor da biomanufatura, por sua vez, respondeu por só 2,4% do valor agregado da produção industrial chinesa em 2023. Ou seja, há um descompasso evidente entre produção científica e aplicação econômica.

Diante desse cenário, o governo chinês adotou uma estratégia baseada em plataformas piloto. Elas foram incluídas como prioridade no plano quinquenal da bioeconomia de 2022 e visam funcionar como ponte entre o laboratório e a indústria. Até 2027, a meta é instalar mais de 20 plataformas aptas a atender 200 empresas e incubar 400 novos produtos, com ênfase em setores como biofármacos, bioenergia, alimentos e enzimas industriais.

Grandes centros urbanos estão na linha de frente dessa missão. Em Pequim, foi lançado um plano para consolidar a cidade como polo da biologia sintética até 2026. Estão previstas a formação de cinco equipes científicas de ponta, o estabelecimento de três a cinco plataformas piloto e a construção de infraestrutura com tecnologias de automação, big data e inteligência artificial. A capital também visa a criação de ao menos dois distritos industriais de bilhões de yuans dedicados à bioindústria.

Em Tianjin, o investimento é voltado para especialização e criação de dois polos: a “Valle delle cellule” e um parque biofarmacêutico. Setores com alto potencial técnico e ambiental estão no foco, como captura biológica de CO₂ e alimentos do futuro. O plano busca atingir 100 bilhões de yuans em valor de produção até 2026, envolvendo 30 projetos de industrialização e o apoio direto a mais de 30 empresas.

Chongqing, por sua vez, aposta em sua biodiversidade e recursos locais para se transformar em polo integrado da bioindústria. Sua estratégia prevê desde o desenvolvimento de biofármacos e tecnologias para biocarburantes até o aproveitamento de resíduos orgânicos do setor de alimentos. As metas incluem a instalação de distritos industriais especializados, mecanismos rápidos de aprovação tecnológica e um foco significativo em propriedade intelectual e biossegurança.

Em comum, os três municípios integram as plataformas piloto com estratégias mais amplas de transição ecológica e inovação industrial. A lógica por trás dessas iniciativas é sintetizada em expressões como “transformar pontos em pérolas” e “ligar pérolas em cadeias” — que reforçam a ideia de estruturar ecossistemas de inovação interligados a partir de descobertas pontuais.

Segundo Cricchio, o sucesso dessa abordagem dependerá da capacidade do país de alinhar ambição política, infraestrutura tecnológica e coordenação interinstitucional. A biomanufatura é vista não apenas como alavanca tecnológica, mas também como parte essencial de uma política de soberania industrial baseada em recursos renováveis e redução de emissões.

As plataformas piloto não são, portanto, apenas um elo técnico dentro da cadeia produtiva. Elas representam, conforme o autor, instrumentos-chave para costurar um novo ecossistema bioeconômico chinês, com empresas, talentos e territórios integrados em cadeias de valor orientadas tanto à inovação quanto à sustentabilidade.

Fonte: Bio-manufacturing cinese: dal laboratorio al mercato attraverso i progetti “pilot-scale”

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