Amazônia enfrenta salto na degradação florestal apesar da queda no desmatamento

Apesar da redução no índice de desmatamento na Amazônia entre 2022 e 2024, o bioma sofreu um aumento expressivo no ritmo de degradação florestal. É o que mostra um estudo publicado na revista Global Change Biology, conduzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Universidade de São Paulo (USP) e instituições internacionais.

Segundo o levantamento, os alertas de degradação subiram 163% em dois anos, atingindo a marca de 25.023 km² apenas em 2024. Mais de 60% dessa área foi impactada por incêndios florestais, impulsionados por uma seca intensa que reduziu a precipitação mensal em até 100 milímetros e elevou as temperaturas acima de 3 ºC. O número de focos de calor registrados no ano passado (140.328) foi o maior desde 2007.

Por outro lado, o desmatamento teve uma queda significativa no período, com redução de 54,2% entre 2022 e 2024. Em 2024, o total desmatado foi de 5.816 km² — o menor registro da última década — de acordo com dados do Prodes, programa de monitoramento por satélite do Inpe.

Mesmo com a retração no desmate, os pesquisadores alertam que a integridade ecológica da floresta continua sendo ameaçada. De acordo com Guilherme Mataveli, primeiro autor do estudo, a degradação dificulta a detecção por manter parte da vegetação de pé, tornando o impacto mais silencioso. Esse tipo de dano reduz significativamente os serviços ecossistêmicos da floresta, como a captura de carbono e a regulação do ciclo hidrológico.

Modelos anteriores já indicavam que cerca de 40% da floresta remanescente na Amazônia apresenta algum nível de degradação, causada por incêndios, extração seletiva de madeira, proximidade com áreas desmatadas — conhecido como efeito de borda — e secas extremas. As emissões de carbono associadas podem atingir até 200 milhões de toneladas por ano, número comparável ou superior ao causado pelo desmatamento direto.

Luiz Aragão, do laboratório Trees e coautor do estudo, destaca que o sistema de satélites utilizado permite não só identificar e mensurar a degradação, como quantificar as emissões relacionadas. Essa capacidade abre caminho para um planejamento estratégico de gestão territorial mais eficaz, com políticas pautadas em dados atualizados e transparentes. Ele alerta que enfrentar a degradação será determinante para que o Brasil mantenha sua liderança internacional em ações climáticas e conservação da biodiversidade.

O estudo reforça a urgência na adoção de políticas robustas para controle da degradação, como o reforço no manejo de incêndios, programas de restauração florestal e o uso de mecanismos de mercado como os créditos de carbono. A integração dessas estratégias pode oferecer incentivos para produtores rurais, empresas e comunidades locais aderirem a práticas sustentáveis.

O contexto ganha ainda mais relevância pelo papel do Brasil nas negociações climáticas internacionais. Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém (PA), o país se comprometeu a reduzir suas emissões líquidas de gases de efeito estufa em até 67% até 2035, com base nos níveis de 2005. A escalada da degradação, portanto, representa um obstáculo real para o cumprimento dessas metas traçadas na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC).

Além disso, os autores apontam a necessidade de aprimoramento nas metodologias de rastreabilidade da degradação, assim como a criação de instrumentos legais para responsabilizar agentes que contribuam diretamente para a degradação florestal.

Com dados precisos em mãos e tecnologias já disponíveis, o desafio agora é garantir a implementação de políticas públicas que não se limitem à redução do desmatamento, mas que também enfrentem de forma contundente a degradação em curso. A breve melhora em números de desmate, se desvinculada da integridade ecológica da floresta, pode mascarar um avanço silencioso, mas severo, da perda florestal.

Fonte: Degradação da Amazônia cresce 163% em dois anos, enquanto desmatamento cai 54% no mesmo período

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