A meta de desmatamento zero até 2030 passou a operar como diretriz estruturante da política ambiental brasileira, com efeitos práticos sobre instituições, prioridades orçamentárias e o posicionamento do país no debate climático. A estratégia em curso combina fiscalização de crimes ambientais, coordenação entre órgãos federais, ordenamento territorial e estímulo a cadeias produtivas compatíveis com a floresta em pé, buscando transformar o desmatamento ilegal em um fenômeno residual ao fim da década.
No centro do redesenho está a retomada do PPCDAm, Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal,, atualizado para voltar a orientar ações integradas de monitoramento, repressão e promoção de atividades econômicas sustentáveis. A diretriz combina controle e desenvolvimento por meio de tecnologia, inteligência territorial e financiamento internacional, com a ambição explícita de evitar que a degradação se consolide antes da resposta estatal.
Uma frente prioritária foi a recomposição da capacidade operacional dos órgãos ambientais. O Ibama ampliou operações de campo, o ICMBio reforçou a presença em unidades de conservação e a Funai passou a integrar ações em áreas sensíveis, especialmente onde há pressão fundiária. Segundo a reportagem, o número de operações de fiscalização na Amazônia cresceu de forma expressiva em comparação a 2022, com aumento superior a 100% em determinados indicadores, e voltaram a ganhar centralidade medidas como embargos, apreensões e aplicação de multas.
O uso de tecnologia aparece como peça-chave dessa virada. O sistema Deter, do Inpe, fornece alertas quase em tempo real sobre mudanças na cobertura florestal, orientando equipes em campo com precisão geográfica para ações mais rápidas. A ampliação de embargos remotos, que bloqueiam o uso econômico de áreas desmatadas ilegalmente antes mesmo da chegada física de agentes, também é destacada como inovação administrativa. Essa combinação entre satélites, inteligência territorial e resposta estatal é apontada como responsável por reduzir indicadores de degradação florestal em períodos recentes.
Outra mudança relevante foi tirar o combate ao desmatamento do isolamento institucional. A Casa Civil passou a coordenar a Comissão Interministerial Permanente de Prevenção e Combate ao Desmatamento, reunindo 19 ministérios para alinhar metas e evitar contradições entre políticas de infraestrutura, crédito rural e proteção ambiental. A estratégia ainda se conecta a decisões do Supremo Tribunal Federal no âmbito da ADPF 760, que cobrou a retomada efetiva das políticas de controle, reforçando o caráter institucional da meta.
No campo territorial, o governo trabalha com a destinação de florestas públicas federais, com meta de direcionar 15 milhões de hectares para categorias que assegurem proteção, seja via unidades de conservação, seja por regularização fundiária de comunidades tradicionais. A emissão de Contratos de Direito Real de Uso é apresentada como instrumento para dar segurança jurídica ao uso coletivo e reduzir grilagem e conflitos. Em paralelo, o Programa União com Municípios foca em 70 municípios prioritários para controle de desmatamento e incêndios, com investimento federal que supera centenas de milhões de reais, combinando fiscalização, capacitação e apoio técnico; nessas localidades, a queda do desmatamento teria superado a média regional.
O financiamento ganhou tração com a reativação do Fundo Amazônia, que voltou a captar recursos internacionais e soma nove doadores: Noruega, Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Suíça, Japão, Dinamarca, Irlanda e União Europeia. A reportagem informa que novos contratos de doação desde 2023 somaram centenas de milhões de dólares, permitindo investimentos de R$ 3,642 bilhões entre 2023 e 2025; em 2025, mais de R$ 2 bilhões foram aprovados para projetos como fiscalização, restauração florestal, brigadas de incêndio e fortalecimento institucional, com cerca de R$ 850 milhões voltados ao controle do desmatamento ilegal. O pacote inclui a estruturação de 30 bases operacionais, compra de 500 veículos, distribuição de 30 mil equipamentos e capacitação de aproximadamente 5 mil profissionais, além de expansão do apoio ao combate a incêndios no Cerrado e no Pantanal. Paralelamente, a aposta em bioeconomia é colocada como alternativa estrutural ao modelo predatório, com cadeias como açaí e cacau citadas como exemplos de geração de renda e manutenção da floresta; o desafio indicado é transformar esse potencial em escala econômica relevante com infraestrutura, crédito e assistência técnica.
