Uma tese de doutorado defendida em 18 de novembro de 2025 na Universidade Federal do Amazonas analisou como startups e spin-offs de bionegócios incubadas em Manaus vêm lidando, na prática, com inovação, sustentabilidade ambiental, capacitação tecnológica e transferência de tecnologia. O trabalho, baseado em estudo de múltiplos casos com abordagem qualitativa e quantitativa, combinou levantamento on-line (formulário no Google Forms) com entrevistas não estruturadas com gestores de incubadoras e empresas incubadas, cobrindo o período de 2020 a 2024.
O estudo parte de um diagnóstico do ecossistema local: segundo dados citados da Rede de Inovação e Empreendedorismo da Amazônia (RAMI), o Amazonas tinha 20 ambientes de empreendedorismo e inovação em 2025, com 100 empresas incubadas, 61 graduadas e 350 postos de trabalho. Em Manaus, 11 ambientes atuavam na área, somando 53 empresas de bionegócios em incubação, com distribuição que vai de 10 no CIDE a 11 na incubadora da UEA e 8 na incubadora do INPA, além de iniciativas como IFAM, UFAM, CBA e hubs privados listados no levantamento.
Ao olhar para dentro das empresas, a tese aponta um perfil heterogêneo: as equipes combinam profissionais com diferentes níveis de escolaridade, incluindo doutores, mestres e graduados, e os negócios estão em diferentes fases de maturidade, com predominância de empresas já em operação. Entre as atividades econômicas, a área de alimentos aparece como o segmento mais frequente entre as startups analisadas, indicando um recorte importante para quem formula programas de suporte tecnológico e estratégias de acesso a mercado voltadas ao ecossistema local.
A pesquisa registra, também, uma percepção recorrente captada em consulta preliminar a gestores de incubadoras: startups chegam à incubação com fragilidades como dificuldades de capital, conhecimento restrito de gestão, equipes pequenas e nem sempre com boa qualificação, além de baixa interação com instituições científicas e tecnológicas e planejamento limitado. Do lado dos gestores, surge um ponto sensível: fora do ambiente acadêmico, muitas empresas relatadas tentam se aproximar de instituições de pesquisa, mas esbarram em obstáculos; em alguns casos, utilizam conhecimentos tradicionais sem a comprovação científica dos resultados no desenvolvimento de produtos, enquanto são descritas como poucas as spin-offs oriundas da academia ou startups com produtos resultantes de pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Nos resultados consolidados, a tese relata que houve publicação de quatro artigos científicos e um capítulo de livro, além de dados coletados na fase final com potencial de novas publicações. O trabalho também identifica como tendência a preocupação com sustentabilidade ambiental por parte das startups, mas sustenta que esse compromisso, para ganhar robustez operacional, depende de condições de suporte ao ciclo de desenvolvimento tecnológico, especialmente quando há necessidade de laboratórios e de interação estruturada com atores externos.
O principal achado propositivo está na recomendação de as incubadoras criarem mecanismos de acompanhamento sistemático para detectar necessidades específicas de cada empresa incubada. Entre as demandas listadas estão capacitações e treinamentos alinhados ao estágio do negócio, consultorias em propriedade intelectual e aderência às diretrizes das leis de biodiversidade, intensificação das interações com instituições científicas, tecnológicas e de inovação, estímulo ao acesso a mercados, apoio para elaboração de projetos e acesso a editais de fomento, além de facilitar o acesso a laboratórios, condição apontada como aceleradora do processo de transferência de tecnologia e inovação.
Ao enquadrar a discussão em instrumentos de avaliação do processo inovativo e no arcabouço regulatório citado no texto, incluindo o Manual de Oslo, o Marco Legal da Inovação e a Lei da Biodiversidade, a tese reforça que o desafio local não é apenas “incubar”, mas garantir que a incubação se traduza em trajetória técnica verificável, com capacidade de atravessar etapas como pesquisa, proteção do conhecimento e conexão com infraestrutura. O recado para tomadores de decisão é pragmático: fortalecer rotinas de monitoramento, qualificação e acesso a recursos pode ser a diferença entre negócios que permanecem periféricos e empresas capazes de sustentar inovação, reduzir risco e ampliar inserção em mercados.
