Tambaqui pode crescer com menos proteína e mais carboidrato na dieta, mostra estudo da Unesp

Uma pesquisa desenvolvida no campus de Dracena da Universidade Estadual Paulista (Unesp) estabelece um novo patamar para a alimentação do tambaqui (Colossoma macropomum), com potencial para reduzir tanto os custos de produção quanto os impactos ambientais associados à piscicultura intensiva. O estudo identificou uma proporção ideal entre proteínas digestíveis e carboidratos na dieta do peixe, ajustando a formulação sem comprometer o desempenho zootécnico.

Conduzido por Gabriela Carli, com orientação do professor Leonardo Takahashi e apoio da FAPESP e da Fapeam, o estudo mostrou que uma dieta contendo 260 gramas por quilo de proteína digestível e 180 gramas por quilo de amido atinge um bom equilíbrio entre eficiência alimentar e resposta metabólica. A formulação reduz o uso de proteína, o insumo mais caro na ração, sem comprometer o crescimento ou a composição do animal.

Esse resultado contraria estudos anteriores realizados com peixes de clima temperado, que indicavam baixa tolerância ao carboidrato. Segundo Takahashi, o tambaqui, por ser um peixe amazônico onívoro, está naturalmente adaptado ao consumo de frutos e sementes, fontes ricas em carboidrato. Essa característica foi confirmada por avaliações bioquímicas realizadas ao longo de 90 dias de experimento com 288 juvenis da espécie.

Os peixes alimentados com níveis mais altos de carboidrato apresentaram elevações em gordura hepática e reservas de glicogênio, sem prejuízo ao crescimento corporal. Uma das dietas testadas, chamada P26S18, se destacou ao proporcionar uma melhor taxa de eficiência proteica e uma retenção adequada de proteína na carcaça, além de menor excreção de compostos nitrogenados como a amônia.

A menor produção de resíduos nitrogenados é um benefício ambiental significativo. Nas condições de piscicultura intensiva, o acúmulo de compostos como a amônia pode comprometer a qualidade da água, reduzir o bem-estar dos peixes e levar à mortalidade nos viveiros. Dessa forma, dietas que otimizem o uso dos nutrientes e reduzam a excreção ajudam também a tornar a produção mais sustentável.

As dietas formuladas foram isoenergéticas, com mesma quantidade de energia digestível, possibilitando comparações diretas entre os diferentes níveis de proteína e amido. Os ingredientes utilizados incluiram farinha de peixe, glúten de milho, óleo de soja e amido de milho – fontes convencionais na aquicultura brasileira.

O estudo também aponta desdobramentos promissores para a formulação de rações regionais. Segundo Takahashi, é possível aproveitar resíduos agroindustriais da Amazônia, como os das indústrias de polpa de frutas, para produzir rações localmente, reduzindo custos com transporte e reforçando a bioeconomia da região Norte.

Gabriela Carli ressalta o impacto direto da pesquisa para os piscicultores: “A ração representa mais de 70% dos custos da produção. Com essa nova formulação, é possível ampliar a rentabilidade mesmo para pequenos produtores, que enfrentam dificuldade de acesso à alimentação adequada para os animais.”

Os pesquisadores indicam que os resultados obtidos com juvenis podem ser aplicados às fases iniciais da criação, que concentram os maiores custos nutricionais. No entanto, novas etapas da pesquisa devem avaliar a aplicação das dietas nas demais fases do ciclo produtivo, além de testar ingredientes alternativos disponíveis regionalmente.

Fonte: Grupo determina proporção ideal de nutrientes na dieta do tambaqui, o que pode baixar o custo da ração

Compartilhar