As mudanças climáticas devem comprometer de forma significativa a recarga dos aquíferos brasileiros até o fim deste século. É o que aponta um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Geociências da USP e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que avaliou projeções climáticas corrigidas sobre variáveis críticas como temperatura, precipitação, escoamento superficial e recarga de águas subterrâneas. Os resultados indicam uma tendência clara de agravamento da escassez hídrica, especialmente nas regiões Sudeste e Sul do país.
Utilizando dados do modelo climático CMIP6, o estudo analisou dois cenários de emissões de gases de efeito estufa — um mais moderado (SSP245) e outro mais pessimista (SSP585) — em três períodos distintos: 2025–2050, 2050–2075 e 2075–2100. As simulações apontam para um aumento médio da temperatura entre 1,02 °C e 3,66 °C. Ao mesmo tempo, a distribuição das chuvas deve se tornar ainda mais irregular, com tendência de queda nas regiões Norte e Leste e aumentos pontuais no Sul e Nordeste.
A redução da recarga dos aquíferos varia regionalmente, mas pode chegar a um valor extremo de −666 mm por ano. O Sistema Aquífero Bauru-Caiuá, localizado no Centro-Oeste, é o mais severamente afetado, com redução de até 27,94% na recarga. Outros sistemas críticos incluem o Guarani, Furnas, Serra Geral, Bambuí Cárstico e Parecis, que cobrem vastas porções do território nacional e abastecem milhões de brasileiros.
Cerca de 112 milhões de brasileiros dependem de águas subterrâneas para abastecimento total ou parcial, segundo o levantamento. Atualmente, o Brasil opera com aproximadamente 3 milhões de poços tubulares e 2 milhões de poços escavados, com uma vazão total que varia entre 550 e 600 metros cúbicos por segundo. A maior parte dessa extração (80% a 90%) é destinada a usos privados, como agricultura, indústria e abastecimento complementar.
Uma das conclusões mais relevantes do estudo é que, mesmo quando a quantidade de chuvas não varia muito, o regime de precipitação tende a se alterar, com verões mais chuvosos e estiagens mais prolongadas. Chuvas concentradas em curto espaço de tempo favorecem o escoamento superficial e limitam a infiltração da água no solo, prejudicando a recarga dos aquíferos.
Sem infiltração suficiente, os aquíferos perdem sua capacidade de se renovar. Segundo Ricardo Hirata, professor do IGc-USP e primeiro autor do estudo, a infiltração até atingir o lençol freático pode levar meses, e chuvas intensas demais não favorecem esse processo. A mudança no padrão da chuva, portanto, representa uma ameaça direta à sustentabilidade dos reservatórios subterrâneos.
Apesar da sua importância estratégica — demonstrada, por exemplo, na crise hídrica de 2014–2016, em que cidades abastecidas com água subterrânea sofreram menos —, a gestão dos aquíferos ainda é negligenciada no debate climático. Segundo Hirata, os aquíferos praticamente não aparecem nas discussões de políticas públicas relacionadas às mudanças climáticas.
A pesquisa também aponta caminhos para mitigar os impactos. Uma das possibilidades é a adoção de técnicas de “recarga manejada” (managed aquifer recharge), que envolvem desde bacias de infiltração até a injeção direta de água, seja da chuva ou de esgoto tratado. Hirata ressalta o potencial do solo como filtro natural, capaz de purificar a água durante seu trajeto até o aquífero.
Curiosamente, parte da recarga subterrânea já ocorre de forma involuntária em áreas urbanas, como em São Paulo, onde estudos com isótopos indicam que 50% da recarga provêm de vazamentos nas redes de água e esgoto. Isso reforça a ideia de que a ocupação urbana, quando bem monitorada, pode desempenhar um papel positivo na manutenção dos aquíferos.
O trabalho reforça a urgência de incluir as águas subterrâneas nas estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Sem uma gestão integrada e previsões de longo prazo, as regiões mais afetadas podem enfrentar um cenário de escassez estrutural, com consequências socioeconômicas amplas e graves.
Fonte: Mudanças climáticas podem reduzir drasticamente a recarga de aquíferos no Brasil
