Um peptídeo isolado da pele de uma rã do Cerrado mostrou potencial para prolongar a qualidade do morango, uma fruta de alta perecibilidade e sensível à degradação após a colheita. Em experimento conduzido na Universidade Estadual Paulista, morangos da variedade Oso Grande ficaram por apenas cinco minutos em contato com a molécula Ctx(Ile21)-Ha. O resultado foi relevante para a cadeia de alimentos frescos: após cinco dias de armazenamento, a fruta tratada manteve características associadas ao ponto de maturação, sem perda significativa de parâmetros avaliados no estudo.
A pesquisa, publicada na revista Applied Food Research, concentrou-se em indicadores físico-químicos e bioquímicos, sem avançar ainda para testes microbiológicos. Os dados indicaram que o tratamento não interferiu no sabor do morango e não alterou de forma significativa os compostos fenólicos nem os sólidos solúveis totais. Esses sólidos, relacionados aos açúcares, costumam ser degradados com facilidade por microrganismos durante o armazenamento. Nos frutos expostos ao peptídeo, eles foram preservados, assim como a textura, um atributo decisivo para aceitação comercial.
O ensaio foi desenhado para simular uma condição próxima à rotina de conservação no varejo. A equipe solubilizou o peptídeo em água em três concentrações diferentes e mergulhou 300 gramas de morango por cinco minutos em cada solução. Um grupo-controle passou apenas por água. Depois da secagem, as frutas foram acondicionadas em bandejas de PET sanitizadas com etanol, cobertas com papel-filme e mantidas a 5 °C em incubadora com controle preciso de temperatura. As amostras permaneceram armazenadas por seis dias.
As medições foram feitas nos dias 0, 1, 2, 3, 4 e 5, com avaliação de pH, sólidos solúveis, textura, taxa respiratória, ácido ascórbico, fenóis totais, açúcares e atividade enzimática. Os experimentos foram realizados em triplicata, estratégia que reduz variabilidade e margem de erro. A colaboração envolveu pesquisadores da Faculdade de Engenharia e Ciências da Unesp em Tupã, incluindo áreas de estatística e modelagem preditiva, reforçando o papel da engenharia experimental na avaliação de soluções pós-colheita.
O Ctx(Ile21)-Ha foi isolado em 2006 a partir da espécie Boana albopunctata, por um grupo da Universidade de Brasília. A molécula integra o sistema de defesa do anfíbio, cuja pele mantém contato direto com patógenos do ambiente. Segundo os pesquisadores, o peptídeo apresenta atividade antimicrobiana, mas o estudo com morangos ainda não permite afirmar que houve redução de microrganismos, justamente porque essa etapa não foi realizada. A hipótese será examinada em trabalhos futuros.
O grupo também trabalha com aplicações do peptídeo em nutrição animal, com foco na substituição de antibióticos convencionais em algumas frentes produtivas. Há um pedido de patente para uso em aves poedeiras e outro em andamento para ruminantes. No laboratório da Unesp, a molécula é sintetizada, purificada e caracterizada com grau de pureza superior a 95%. Por ser composta por aminoácidos, os pesquisadores afirmam que ela pode ser degradada normalmente no estômago, embora ressaltem que a aplicação em alimentos ainda está em fase de prova de conceito.
O caminho até uma aplicação comercial exige etapas adicionais. O peptídeo ainda não possui regulamentação de uso no Brasil, embora já existam outros peptídeos comerciais aprovados e utilizados no país. Os próximos passos incluem os testes microbiológicos, a busca por produção em larga escala em modelos descritos na literatura, como leveduras, e o desenvolvimento de uma película para envolver frutas com casca. A discussão regulatória também entra no horizonte: a Instrução Normativa nº 211/2023 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária define limites e condições de uso para aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados em alimentos.
Fonte: Peptídeo isolado de rã do Cerrado aumenta a durabilidade do morango
