Um editorial publicado no New Zealand Journal of Research on Europe sustenta que a Nova Zelândia deve intensificar o diálogo com investidores europeus para ampliar sua capacidade de investimento e apoiar objetivos nacionais e internacionais, incluindo respostas à crise climática. O texto parte da premissa de que economias pequenas e abertas não dispõem de capital doméstico suficiente para atender todas as necessidades e, por isso, tendem a depender de fluxos externos para financiar expansão produtiva, inovação e infraestrutura.
O argumento é ancorado em evidências sobre investimento direto estrangeiro: pesquisas citadas indicam que ele pode gerar efeitos positivos por meio de transferência de capital e tecnologia, ganhos de produtividade, inovação, criação de empregos e desenvolvimento de competências, desde que existam condições locais, como formação de capital humano e ativos intangíveis capazes de absorver esses aportes. O editorial também menciona dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (2024) segundo os quais empresas estrangeiras foram 80% mais propensas a investir em pesquisa e desenvolvimento do que empresas domésticas, além de apresentarem maior eficiência energética e produtividade; por outro lado, também apareceram como mais intensivas em carbono.
Na fotografia recente do capital externo, a União Europeia aparece como um ator relevante, mas aquém do potencial sugerido pelo autor. Entre 2019 e 2024, os maiores investidores estrangeiros na Nova Zelândia foram Austrália, Estados Unidos, Reino Unido e Singapura, que juntos responderam por 57,5% do total de investimento estrangeiro. Já no estoque de investimento direto no ano encerrado em março de 2024, a União Europeia ocupou a quinta posição, com cerca de 5% do total, atrás de Austrália, Estados Unidos, Singapura e Japão, conforme dados da Stats NZ.
Detalhando a presença europeia, o editorial aponta números do Eurostat que estimam o estoque de investimento direto da União Europeia na Nova Zelândia em 9,9 bilhões de euros em 2023. A maior parcela esteve concentrada em serviços financeiros e seguros (quase 3 bilhões de euros), seguida por atividades profissionais, científicas e técnicas (1,6 bilhão de euros) e por manufatura (1,3 bilhão de euros). Entrevistas citadas no texto indicaram apetite setorial adicional, incluindo energia renovável, turismo e alimentos e bebidas, além de tecnologias verdes, processamento e embalagem de alimentos e infraestrutura.
O editorial também recupera exemplos apresentados no primeiro EU, New Zealand Business Summit, realizado em Auckland em novembro de 2025, como sinais de trilhas possíveis para cooperação. Entre os casos mencionados estão a captação de 500 milhões de euros por um banco neozelandês via emissão de título verde no mercado europeu em 2019; a atuação da francesa VINCI Highways em projetos de infraestrutura rodoviária, com destaque para contratos de desenho e construção na ligação Ōtaki–Levin; e um contrato de cinco anos da sueca Ericsson para modernizar a rede da One NZ com tecnologia 5G nativa em nuvem, com plataforma unificada 4G/5G e integração de inteligência artificial, segundo o relato do evento.
Um ponto central do texto é que a relação não deve ser tratada como fluxo unidirecional. O editorial destaca “bolsões” de conhecimento da Nova Zelândia em áreas de nicho, como economia espacial e bioeconomia, capazes de sustentar parcerias mais equilibradas. Como ilustração, cita a presença de empresas do setor espacial no encontro e casos como a aquisição, por Rocket Lab, da alemã Mynaric por US$ 75 milhões, especializada em terminais de comunicação óptica a laser para aplicações espaciais e aéreas, além da Dawn Aerospace, que opera tanto na Nova Zelândia quanto na Holanda.
Para destravar um ambiente mais receptivo ao capital externo, o editorial defende a reforma da Overseas Investment Act, descrita por especialistas como um regime excessivamente complexo e desestimulador de investimentos críticos, com forte peso de triagem e aprovações. A publicação afirma que a Nova Zelândia registrou a pontuação mais restritiva no índice de restrição regulatória de investimento direto estrangeiro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e menciona estudo da entidade sugerindo que uma liberalização de cerca de 10% nesse indicador poderia elevar, em média, o estoque bilateral de investimento direto em 2,1%. O texto ainda observa que fatores como alíquotas de imposto corporativo influenciam a atratividade, citando a taxa de 28% do país em comparação com Irlanda (12,5%) e Singapura (17%).
Na frente de ciência e cooperação, o editorial ressalta a dimensão de pesquisa como forma de investimento, destacando o status de associação da Nova Zelândia ao Horizon Europe, programa de financiamento da União Europeia estimado em mais de NZ$ 160 bilhões entre 2021 e 2027. O texto relata a participação de pesquisadores neozelandeses em consórcios com europeus em temas como tratamento de infecção latente por tuberculose, biovestíveis inteligentes, plataformas de bioimpressão e urbanismo resiliente, além de mencionar o debate sobre a importância de financiar também ciências sociais e humanidades. Ao final, a mensagem é de que a atração de investimento europeu pode ser fortalecida por reformas e por uma agenda de cooperação que combine capital, pesquisa e competências em áreas estratégicas.
Fonte: WHY NEW ZEALAND NEEDS EUROPEAN INVESTMENT: TOWARDS NEW ZEALAND – EUROPEAN ENDEAVOURS
