Modelo integra sete etapas e propõe novo referencial para desenvolvimento bioeconômico

A publicação do artigo O Ciclo da Bioeconomia propõe uma abordagem original para integrar e estruturar a complexa cadeia de agregação de valor da bioeconomia, especialmente no contexto brasileiro. Estruturado a partir das teorias da cadeia de valor, da economia circular e das diferentes visões da bioeconomia, o modelo apresentado descreve sete etapas interdependentes—Sociobiodiversidade, Biorrecursos, Biotecnologia, Bioinovação, Bioprodução, Bionegócio e Bioecologia—e adota a Biogovernança como eixo transversal.

O modelo busca resolver uma lacuna teórica importante: a ausência de uma estrutura sistêmica que conecte, de forma holística, todas as partes da bioeconomia de forma clara para cientistas, gestores públicos e empresas. De acordo com os autores, a bioeconomia ainda é frequentemente percebida como uma série de setores desconectados, o que dificulta seu avanço estratégico.

Ao posicionar o conceito de Sociobiodiversidade como ponto de partida do ciclo, o modelo reconhece o valor intrínseco de ecossistemas e saberes tradicionais que fornecem os biorrecursos utilizados pela Biotecnologia. Esta, por sua vez, transforma insumos naturais em soluções inovadoras—o que é descrito na Bioinovação—que são levadas à escala comercial por meio da Bioprodução.

Esses produtos e serviços chegam à economia real através dos Bionegócios, que não estão exclusivamente vinculados à biotecnologia de ponta, podendo incluir desde o uso in natura de recursos até aplicações com alta complexidade tecnológica. O objetivo final do ciclo é alcançar a Bioecologia, momento em que os resultados econômicos devem retornar como benefícios tangíveis para as comunidades e para os ecossistemas que originaram os recursos.

O diferencial conceitual do modelo está no fato de que ele não apenas descreve como o valor é criado, mas também como ele é regenerado. Inspirado na economia circular, o ciclo não termina na produção e comercialização, mas se fecha com práticas de retorno sustentável ao meio ambiente e à sociedade civil. Esse retorno, segundo os autores, é o que valida a sustentabilidade do sistema.

A Biogovernança, eixo transversal do modelo, define o arcabouço normativo, ético e institucional que interliga as etapas do ciclo. Ela envolve a coordenação entre o Estado, o setor privado e a sociedade civil, cada qual com atores e poderes específicos—do normativo ao simbólico, passando pela capacidade inovadora das empresas. Ao incluir o ambiente natural como um componente estruturante da governança, em vez de simples cenário, a biogovernança amplia a legitimidade e eficácia da bioeconomia como política pública e prática empresarial.

O modelo não é apenas teórico. Ele se encontra amparado por legislação recente, como o Decreto nº 12.044/2024, que institui a Estratégia Nacional de Bioeconomia do Brasil e reconhece formalmente seus componentes e diretrizes. O ciclo também permite alinhar o país aos marcos regulatórios internacionais e objetivos da Agenda 2030 da ONU, sendo uma ferramenta útil para formulação de políticas, estruturação de cadeias de valor e atração de investimentos sustentáveis.

No setor empresarial, o Ciclo da Bioeconomia oferece um roteiro valioso para identificar oportunidades em setores tradicionais e de alta tecnologia, e para atrair investimentos alinhados a critérios ESG. O modelo também aponta caminhos para o uso racional e inovador dos recursos naturais, com inserção social e retorno ambiental como parte do resultado esperado.

Para os autores do estudo, a principal contribuição do modelo é sua capacidade de unir paradigmas antes tratados de forma isolada. Ao articular valor econômico, regeneração ecológica e inclusão social em um único ciclo, o modelo oferece um referencial metodológico robusto para orientar o desenvolvimento da bioeconomia como principal axioma de desenvolvimento sustentável para o século XXI.

Embora o Ciclo da Bioeconomia ainda careça de validação empírica, os autores o propõem como a base de um novo paradigma de planejamento e organização das atividades econômicas baseadas em recursos biológicos, com potencial particular para aplicação no contexto amazônico. O ciclo se apresenta, assim, como proposta inicial de um novo marco analítico, em contínuo aperfeiçoamento, e um convite à interdisciplinaridade e à participação coletiva na governança da bioeconomia.

Fonte: O Ciclo da Bioeconomia

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