A Systemica, empresa especializada em projetos de créditos de carbono, venceu o primeiro leilão de floresta desmatada do Brasil, promovido pelo governo do Pará. A área concedida, chamada de Unidade de Recuperação Triunfo do Xingu (URTX), possui 10,3 mil hectares que deverão ser restaurados ao longo de um contrato de 40 anos. Em contrapartida, a empresa poderá comercializar os créditos de carbono gerados pelo reflorestamento.
Com um investimento previsto de R$ 258 milhões, a Systemica estima gerar até R$ 949,5 milhões em receita com os créditos. A estimativa do governo é que o projeto resulte no sequestro de 3,7 milhões de toneladas de carbono e na criação de até dois mil empregos, além de repassar R$ 40 milhões às comunidades locais. A concessão é vista como estratégica para consolidar um novo modelo de uso econômico de áreas degradadas da Amazônia.
O leilão teve apenas duas empresas interessadas, mas apenas a Systemica foi considerada habilitada. A outra concorrente, a Genuíno Reflorestamento, foi desclassificada por não apresentar os documentos exigidos, incluindo o contrato social e a comprovação da representação legal. Sem concorrência, a Systemica fez a proposta máxima possível: uma outorga variável de 6% da receita operacional bruta e uma outorga fixa de R$ 150 mil, alcançando a pontuação máxima do processo.
Este será o maior projeto de reflorestamento de floresta nativa já executado pela empresa no Brasil. Atualmente, o maior empreendimento da Systemica é em Parauapebas (PA), com apenas 400 hectares – aproximadamente 4% da extensão da área concedida agora. A própria empresa reconhece que o desafio logístico e de controle de desmatamento na região deve ser significativo, o que possivelmente afastou competidores.
Embora o número limitado de participantes tenha levantado críticas do mercado, o governador Helder Barbalho destacou que a falta de concorrência era esperada em função da novidade do modelo. Ele afirmou que esta concessão “vira a chave da incerteza” e abre caminho para novos projetos. O estado já planeja oferecer mais 30 mil hectares à iniciativa privada em dois novos leilões. O governo federal também estuda realizar editais que somam até 500 mil hectares.
Empresas como re.green e Mombak visitaram a área, mas decidiram não apresentar propostas neste primeiro certame. Para o secretário estadual de Meio Ambiente, Raul Protazio Romão, o histórico de grilagem no setor é uma barreira. Ele destacou, no entanto, que o leilão foi bem-sucedido por atrair o interesse das líderes do setor de carbono.
O diretor jurídico da Systemica, Tiago Ricci, afirmou que esperava mais concorrência, mas compreende que as empresas estão analisando com cautela quais áreas apresentam melhores condições para retorno. Segundo ele, “o conhecimento do território é fundamental” e haverá muitas oportunidades no Brasil, embora os recursos sejam finitos.
A Systemica já executa um projeto de preservação na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, que ainda está em fase de certificação. Para o novo projeto, a empresa busca financiamento do BNDES, com a expectativa de captar ao menos 50% do investimento de R$ 258 milhões por meio do banco de fomento.
O leilão estabelece um marco na estratégia de concessão de áreas degradadas com fins de recuperação florestal orientada ao mercado de carbono. Ainda que o modelo enfrente desafios logísticos e institucionais, o sucesso dessa iniciativa poderá atrair novos investimentos e consolidar uma abordagem econômica para combater o desmatamento na Amazônia.
Fonte: Systemica vence leilão de floresta desmatada no Pará, o primeiro do País
