Inteligência artificial pode reduzir perdas na bioeconomia, mas depende de dados e governança

A inteligência artificial pode tornar mais eficiente o caminho entre a produção de recursos biológicos e seu aproveitamento industrial, mas seus resultados dependem de condições que vão além dos algoritmos. Uma análise sobre o tema identifica oportunidades na pesquisa, no controle de processos e na coordenação de fornecedores, ao mesmo tempo que alerta para erros dos modelos, desigualdade de acesso e ausência de regras capazes de orientar seu uso.

Na agricultura, na silvicultura e na aquicultura, dados de sensores, clima, solo e manejo podem apoiar decisões sobre irrigação, fertilização, colheita, alimentação e prevenção de doenças. Em instalações de produção biológica, a mesma lógica pode ajudar a ajustar fermentações e detectar falhas. Para a engenharia, o ganho potencial está em usar insumos com mais precisão e manter a qualidade do produto; a análise, porém, não apresenta esses benefícios como resultados garantidos.

O aproveitamento de resíduos expõe um limite prático: materiais variam em composição, umidade, localização e época de oferta, além de poderem estar contaminados. Ferramentas de classificação e monitoramento podem facilitar seu uso como matéria-prima, mas não substituem coleta, transporte, padrões de qualidade e processamento. Nem todo resíduo agrícola ou florestal deve ser retirado: parte dele cumpre funções relacionadas à cobertura do solo, aos nutrientes, à biodiversidade ou ao risco de incêndio, conforme o local.

A logística da biomassa é outro ponto decisivo. Prever a oferta de matéria-prima, planejar estoques, escolher rotas e dimensionar unidades de processamento pode ajudar a conciliar escala industrial e custos de transporte. Esses sistemas também podem incorporar riscos de secas, enchentes, incêndios e interrupções de fornecimento. Ainda assim, uma cadeia não se forma apenas com previsões melhores: produtores precisam de compradores, indústrias precisam de oferta confiável, e investimentos podem depender de infraestrutura, financiamento e clareza regulatória.

Na pesquisa, a inteligência artificial pode orientar experimentos com enzimas, microrganismos, cultivos e materiais de origem biológica. Identificar uma alternativa promissora, contudo, é diferente de produzi-la em escala e obter aceitação no mercado. A análise destaca que propriedade intelectual, segurança, normas técnicas, capital e confiança continuam a determinar se uma descoberta chegará à aplicação comercial. Também aponta oportunidades de medição de emissões e carbono em solos e florestas, sem confundir maior capacidade de medir com regras para reconhecer e remunerar resultados ambientais.

Os efeitos econômicos e sociais exigem avaliação própria. Processar matérias-primas perto das áreas de produção pode abrir oportunidades de emprego e renda rural, enquanto a automação pode alterar a demanda por trabalho. Dados, infraestrutura e capital distribuídos de forma desigual podem concentrar ganhos e ampliar diferenças entre regiões. Na pesca e em outros recursos sujeitos à exploração excessiva, ferramentas mais produtivas podem até agravar danos se não houver monitoramento, limites e proteção ecológica.

Por fim, a análise trata a própria inteligência artificial como objeto de escrutínio. Recomenda verificar respostas e referências geradas automaticamente, examinar a qualidade das evidências e tornar transparente o uso dessas ferramentas na pesquisa. Para decisões industriais e públicas, o critério não é quantas tarefas podem ser automatizadas, mas se a tecnologia ajuda a reduzir desperdícios e impactos sem ocultar erros, deslocar responsabilidades ou deixar de lado quem arca com os custos da mudança.

Fonte: Artificial Intelligence and the Bioeconomy: Implications for the Annual Review of Resource Economics

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