Fertilizantes à base de biochar superam desempenho de adubos convencionais em solos tropicais ácidos

Em regiões tropicais marcadas por solos ácidos e pobres em nutrientes, as estratégias convencionais de fertilização têm demonstrado limitações crescentes. Um estudo conduzido por pesquisadores na Etiópia, publicado na revista Biofuels, Bioproducts and Biorefining, investigou o uso de fertilizantes à base de biochar (BBF) como alternativa viável aos insumos inorgânicos importados, com foco na produção de trigo.

Foram avaliadas diferentes formulações de BBF compostas por biochar derivado de casca de café — resíduo agrícola abundante na Etiópia — combinado com digestato ou vermicomposto. Os experimentos foram realizados em 19 propriedades agrícolas nas regiões de Oromia e Sidama, abrangendo solos de diferentes níveis de acidez.

Os resultados mostraram ganhos consideráveis de produtividade em solos mais ácidos. No distrito de Dedo, na localidade de Ilala, o uso de BBF com proporção 2:1 (digestato:biochar) aplicado a 20 t/ha elevou os rendimentos de grãos secos em até 94% e a biomassa aérea em 58% quando comparado ao uso exclusivo de fertilizantes inorgânicos. No distrito de Sito, os aumentos também foram estatisticamente significativos, ainda que mais moderados.

Do ponto de vista agronômico, o BBF teve destaque principalmente nas áreas com pH do solo inferior a 5. Nessas condições, o potencial de correção da acidez pelo biochar foi evidente: em Ilala, o pH subiu de 4,18 (controle) para 5,13 após a aplicação de BBF com maior conteúdo de biochar. Também foram observados aumentos na capacidade de troca catiônica (CEC), fósforo disponível, nitrogênio e potássio nos tratamentos com BBF em doses mais elevadas.

Por outro lado, os efeitos do BBF em solos menos ácidos, como os de Sito e Hula, foram variáveis. Em Hula, por exemplo, os tratamentos com BBF não apresentaram diferença estatística relevante sobre o pH ou SOC (carbono orgânico do solo) comparado aos fertilizantes minerais. Isso indica que a efetividade do BBF está fortemente condicionada à acidez do solo, o que reforça a necessidade de estratégias localizadas para o manejo de fertilidade.

Além dos ganhos de produtividade e melhoria de indicadores químicos do solo, o estudo destaca o potencial do BBF para promover práticas mais sustentáveis na agricultura de base biológica. O uso da casca de café, que frequentemente é descartada de maneira inadequada, viabiliza uma abordagem de economia circular ao transformar resíduos agrícolas locais em insumos de valor agregado.

Entre as limitações apontadas pelos autores está a incerteza quanto à durabilidade dos efeitos do BBF sobre o carbono orgânico do solo. Após apenas uma aplicação e uma safra, os resultados obtidos não confirmaram incremento significativo de SOC na maioria dos casos. Pesquisas futuras deverão considerar ciclos de aplicação múltiplos e monitoramento de longo prazo para validar o BBF como solução sustentável.

Os autores também sugerem que, devido ao seu custo inicial elevado, a aplicação do BBF poderia ser escalonada temporalmente dentro das propriedades, priorizando parcelas com maior degradação. Essa abordagem torna o investimento mais acessível e favorece o restabelecimento gradual da saúde do solo.

Além disso, a integração do BBF em políticas públicas de manejo integrado da fertilidade do solo (ISFM) pode reduzir a dependência de fertilizantes minerais importados e contribuir para o sequestro de carbono, com desdobramentos potenciais em programas de pagamento por serviços ecossistêmicos e neutralidade climática.

Em síntese, o BBF se mostrou promissor em ambientes de alta acidez, fornecendo uma alternativa produtiva e ambientalmente vantajosa aos fertilizantes convencionais. No entanto, sua adoção em larga escala dependerá da realização de estudos econômicos complementares e da organização de cadeias de suprimentos regionais sustentáveis para garantir o acesso dos pequenos agricultores a esse insumo.

Fonte: Biochar- based fertilizers increase crop yields in acidic tropical soils

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