Estudo revela entraves institucionais e disputas discursivas na transição para a bioeconomia

A transição para uma economia baseada em recursos biológicos enfrenta entraves institucionais relevantes na Europa, conforme revela a tese de doutorado de Kerstin Maria Wilde. A pesquisa, conduzida em clusters industriais do noroeste europeu, indica que a transformação para uma bioeconomia esbarra em discordâncias conceituais, contextos institucionais heterogêneos e falta de mecanismos políticos eficazes de coordenação.

O estudo mostrou que atores industriais – incluindo setores de química, processamento de polímeros e materiais de construção – avaliam suas possibilidades de inovação em função de contextos institucionais diversos. Tais ambientes foram classificados em três categorias: barricantes, facilitadores ou exaustivos. Dependendo da categoria, as ações institucionais dos atores são impulsionadas, obstruídas ou desgastadas, o que impacta diretamente a adoção e o desenvolvimento de inovações baseadas em bio-recursos.

Um dos pontos centrais identificados é a ausência de um alinhamento entre incentivos de mercado e políticas públicas. Nenhuma combinação efetiva de mecanismos de empurrão (push), como subsídios a pesquisa, ou de atração (pull), como regulamentações de mercado, se mostrou suficientemente institucionalizada para substituir práticas produtivas baseadas em combustíveis fósseis. A falta de agilidade em processos de normatização, ensaios e certificações para produtos bio-baseados também foi vista como uma barreira crítica.

A análise revelou ainda a existência de cinco narrativas distintas dentro dos clusters estudados, derivadas de três imaginários sócio-técnicos predominantes: bioecologia, biorrecursos e biotecnologia. A narrativa mais difundida entre os entrevistados combina elementos fortes dos imaginários bioecológico e de biorrecursos. Em contrapartida, cada narrativa rejeita parcialmente ao menos um imaginário, o que demonstra conflitos discursivos latentes entre os diversos grupos de atores envolvidos.

Embora a promoção de clusters industriais tenha ajudado a consolidar a ideia de bioeconomia entre empresas e instituições, Wilde adverte que apenas a co-localização física de atores não é capaz de provocar reconfigurações sistêmicas profundas. Essa limitação revela a importância de uma atuação política mais incisiva na reconfiguração dos regimes sócio-técnicos dominantes, que permanecem estruturados com base na exploração de recursos fósseis.

Os atores empresariais entrevistados expressaram que, além de instrumentos locais, é necessário um ambiente normativa mais robusto e coordenado a níveis nacional e internacional. A percepção predominante é de que inovações tecnológicas envoltas na bioeconomia, sobretudo em pequenas e médias empresas, estão estagnadas em fases de teste ou não têm previsão de tornarem-se competitivas em escala no curto ou médio prazo.

Nesse contexto, políticas de transição para uma bioeconomia deveriam considerar as especificidades das diferentes cadeias de valor e os arranjos institucionais que definem suas práticas. Além disso, o estudo traz à tona a importância de atores híbridos – como incumbentes progressistas e startups verdes de origem – capazes de atuar na interseção entre inovação tecnológica e transformação institucional.

Por fim, Wilde destaca que a construção de legitimidade social para uma bioeconomia sustentável passa por articulações discursivas mais coerentes, que subsidiem ajustes regulatórios e comportamentais. A integração entre diferentes setores e sistemas será central para os próximos ciclos de pesquisa e formulação de políticas públicas voltadas ao avanço sistêmico da bioeconomia.

Fonte: Transition towards a bioeconomy: Discourses, vantage points, and actors’ contextualized institutional work

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