Um estudo conduzido pelo pesquisador indígena Hemerson Dantas dos Santos Pataxó Hãhãhãi documentou 175 plantas medicinais utilizadas tradicionalmente pelo povo Pataxó Hã-Hã-Hãi em sua terra no sul da Bahia. A pesquisa, realizada entre 2022 e 2023 com o apoio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), teve como foco inicial o tratamento de três doenças predominantes nas comunidades: verminoses, diabetes e hipertensão.
Por meio da etnobotânica participativa, abordagem que conferiu à comunidade o protagonismo na definição das etapas da pesquisa, o autor—ele mesmo pertencente ao grupo estudado—reuniu informações junto a 19 especialistas indígenas, principalmente idosos, reconhecidos por seu conhecimento terapêutico. Dos 175 vegetais catalogados, 43 foram indicados especificamente para o tratamento das três enfermidades.
O levantamento revelou um dado contundente: a maioria das plantas atualmente utilizadas tem origem exótica. Segundo o pesquisador, esse dado expressa a violência histórica vivida pelos Pataxó Hã-Hã-Hãi, especialmente após a expulsão de seus territórios na década de 1940 com a chegada de fazendeiros. O desmatamento generalizado e o avanço da agropecuária inviabilizaram o uso contínuo de muitas espécies nativas.
Entre as espécies mais descritas pelos entrevistados estão o mastruz (Dysphania ambrosioides) para vermes, moringa (Moringa oleifera) para diabetes e o capim-cidreira (Cymbopogon citratus) para hipertensão. Destas, apenas o mastruz é possivelmente nativo da América do Sul. O estudo também identificou espécies naturais ou cultivadas como Operculina macrocarpa (batata-de-purga) e Momordica charantia (melão-de-são-caetano), ambas com aplicações múltiplas.
Uma análise comparativa com a literatura científica apontou que 79% das plantas indicadas possuem evidência farmacológica publicada que apoia seus usos medicinais. A maioria dos preparos envolve infusões com parte aérea das plantas e administração oral. Adicionalmente, foram identificadas contraindicações importantes para oito espécies, reforçando a importância do conhecimento intergeracional para uso responsável.
A pesquisa destaca uma preocupação crescente: o enfraquecimento da medicina tradicional entre os jovens. Segundo o autor, o impacto da escolarização ocidental, da internet e da precarização das condições de vida têm contribuído para o abandono desse saber. Além das plantas em si, práticas como a pajelança e o ofício das parteiras estão praticamente extintos. Hoje, a maioria dos partos ocorre em hospitais e as rezas tradicionais deram lugar a orações cristãs.
O estudo resultou na criação de um canteiro de plantas medicinais nas aldeias, produção de um livro, um material audiovisual e um livreto com indicações de uso das plantas para jovens e profissionais de saúde. A intenção é revigorar o uso seguro e consciente da medicina tradicional e promover soberania cultural e alimentar no território.
A abordagem metodológica adotada confere autonomia e propriedade epistemológica ao povo Pataxó Hã-Hã-Hãi, além de representar um instrumento de defesa contra o uso indevido de seus saberes. Como apontado pela orientadora do estudo, a professora Eliana Rodrigues, ao permitir que o próprio povo registre e publique seu conhecimento, cria-se uma oportunidade concreta de discutir a propriedade intelectual sobre saberes tradicionais sob uma nova perspectiva.
A pesquisa também revela um dado pouco comentado: mesmo um pesquisador indígena precisou de quase 11 meses para obter autorização da FUNAI para conduzir estudo em sua própria terra. Esse fato evidencia barreiras institucionais que dificultam o protagonismo indígena na produção científica, mesmo quando há formação técnica e desejo legítimo de registrar e preservar conhecimentos ameaçados.
O resgate etnobotânico realizado por Hemerson Dantas dos Santos insere-se, portanto, em um cenário de disputa não apenas pela memória e pela saúde, mas também por espaço, legitimidade e reconhecimento da ciência produzida pelos próprios povos indígenas.
