Estudo propõe sistema inteligente de manejo nutricional para cacau da Amazônia

Pesquisas conduzidas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) propõem um novo caminho para fortalecer a cultura do cacau no sudoeste da Amazônia, região historicamente desfavorecida no uso desse recurso nativo. A partir de análises nutricionais, avaliações fitossanitárias e estudos pós-colheita com diferentes clones de cacaueiro, a pesquisa liderada pela agrônoma Edilaine Istéfani Franklin Traspadini revelou fatores críticos que limitam a produtividade e a qualidade das amêndoas de cacau amazônica.

Os dados mostram que os principais gargalos técnicos da cacauicultura na região incluem a deficiência de micronutrientes como boro (B) e zinco (Zn), a exposição à doença vassoura-de-bruxa e o uso de materiais genéticos menos adaptados às condições locais. Entre os 25 clones avaliados, os materiais EEOP 63 e EEOP 65 demonstraram maior resiliência nutricional e fitossanitária, mantendo elevada produtividade e baixa incidência da doença. Em contraste, clones como EEOP 96 apresentaram produtividade comprometida por desequilíbrios nutricionais e alta suscetibilidade à doença.

A equipe aplicou o método de Diagnose de Composição Nutricional (CND) para identificar os desequilíbrios iônicos das plantas e correlacioná-los ao desempenho dos clones. Essa abordagem multivariada possibilitou a construção de normas nutricionais foliares específicas para Rondônia, superando limitações das faixas de suficiência genéricas baseadas em condições de outras regiões produtoras de cacau.

Paralelamente, a fermentação das amêndoas foi examinada quanto ao impacto nos compostos bioativos e antioxidantes. A pesquisa observou que a fermentação promove redução de açúcares e taninos — o que melhora o sabor, mas também reduz compostos benéficos como fenóis totais e antocianinas. Apesar disso, alguns clones responderam positivamente ao processo, destacando-se o CCN 51, que manteve altos níveis de prolina, glicina betaína e atividade da enzima antioxidante SOD.

Dentro de uma abordagem prática, o estudo incorporou os dados obtidos para desenvolver o FertilizaCacau, um sistema integrado de diagnose e recomendação de adubação específico para a cacauicultura amazônica. A plataforma considera parâmetros foliares, atributos do solo e metas de produtividade. O sistema entrega diagnósticos com base nas faixas: alta insuficiência, insuficiência, equilíbrio, excesso e alto excesso para nutrientes chave como N, P, K, B e Zn — com recomendações técnicas detalhadas por hectare e por planta.

O estudo também revelou que variações entre laboratórios afetam significativamente o diagnóstico nutricional das lavouras. A mesma amostra foliar pode ser classificada de forma distinta a depender do local de análise. Isso reforça a necessidade de harmonização técnica e controles interlaboratoriais, especialmente em regiões onde a precisão diagnóstica é essencial para programas de fertilização eficientes.

As conclusões apontam para uma estratégia integrada que combina genética, manejo nutricional de precisão e controle de qualidade analítica como base para revitalizar a cadeia cacaueira amazônica. Além da melhoria técnica, os resultados têm potencial para embasar políticas públicas voltadas à recuperação econômica e sustentabilidade da agricultura de base florestal na região.

Entre os desdobramentos esperados, está a disponibilização do FertilizaCacau como uma ferramenta de assistência técnica com potencial para orientar agrônomos e agricultores na nutrição de lavouras de cacau. A partir de informações regionais validadas, o projeto pretende mitigar o risco de práticas agronômicas ineficientes, promovendo a produção de cacau com maior valor funcional e econômico.

Fonte: ESTRATÉGIAS AGRONÔMICAS PARA RECUPERAÇÃO SUSTENTÁVEL DA CADEIA CACAUEIRA NO SUDOESTE DA AMAZÔNIA

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