A palma de óleo (Elaeis guineensis), frequentemente associada ao desmatamento em territórios tropicais, pode representar uma alternativa estratégica para a recuperação de áreas degradadas e a produção sustentável de energia no Brasil. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado na Revista de Gestão e Secretariado (GeSec), que avaliou os caminhos possíveis para a bioenergia e bioprodutos a partir do cultivo da palma em terras improdutivas, com foco na região sul da Amazônia brasileira, especialmente no estado de Mato Grosso.
O trabalho explora o potencial do cultivo da palma em combinação com o uso de biorrefinarias, infraestrutura que permite o aproveitamento integral da biomassa, incluindo resíduos como cascas, fibras, folhas e efluentes líquidos. Em vez de se tornarem passivos ambientais, esses subprodutos podem ser convertidos em biocombustíveis, bioquímicos e outros materiais de alto valor econômico, como bioplásticos e bioquerosene.
Segundo a pesquisa, uma planta que processe 100 toneladas/hora de cachos frescos de palma pode gerar lucros anuais de até US$ 932 milhões. Isso se deve à composição química altamente favorável da fruta, com alto teor de triglicerídeos no mesocarpo e significativa presença de celulose e hemicelulose nos cachos vazios, que permitem múltiplas rotas de conversão.
O estudo identificou cerca de 7 milhões de hectares de terras degradadas aptas ao cultivo da palma em Mato Grosso, dos quais 200 mil hectares em condições classificadas como preferenciais segundo o Zoneamento Agroecológico da Embrapa. Essas áreas poderiam ser recuperadas com culturas perenes, possibilitando o sequestro de carbono e a geração de emprego e renda, especialmente quando associadas à agricultura familiar.
Entretanto, a viabilidade econômica e ambiental da expansão dessa cultura depende da implantação de biorrefinarias adaptadas a princípios de economia circular. Isso inclui a integração de tecnologias de processamento, logística regionalizada e medidas de governança ambiental. Os processos industriais devem priorizar recuperação de solo, uso eficiente de nutrientes e métodos de controle para limitar impactos sobre a biodiversidade e os recursos hídricos locais.
O estudo também propõe um modelo de governança baseado em políticas públicas transversais, com incentivos econômicos, regulatórios e financeiros, como subsídios, PPPs e créditos de carbono, além de investimentos consistentes em P&D para o desenvolvimento de cultivares melhor adaptadas ao contexto brasileiro. O sucesso depende da articulação entre políticas setoriais ligadas à energia, agricultura e meio ambiente.
Na estrutura produtiva atual do biodiesel brasileiro, a palma ocupa apenas 0,65% da matriz de oleaginosas, em contraste com os 75% dominados pela soja. Com maior rendimento de óleo por hectare – até 11 vezes superior ao de outras culturas – a palma oferece vantagens produtivas relevantes. Sua expansão em áreas já desmatadas pode constituir uma rota competitiva para a redução estrutural das emissões associadas ao setor energético.
Os autores destacam a importância de estruturar toda a cadeia de valor da palma de forma planejada, com ações voltadas à melhoria dos sistemas logísticos, monitoramento ambiental e inclusão socioeconômica. A proposta não busca substituir monoculturas dominantes, mas complementar e diversificar as fontes de matéria-prima para biocombustíveis sustentáveis, distribuindo de maneira mais equilibrada os benefícios do setor de bioenergia no território nacional.
A transição energética no Brasil exige soluções regionalizadas que promovam a justiça socioambiental e o uso racional dos recursos naturais. Neste sentido, o modelo de biorrefinarias de palma em áreas degradadas apresenta-se como alternativa pragmática, com potencial de transformar passivos ambientais em ativos produtivos e sociais – desde que integrada a um ecossistema regulatório transparente e orientado por ciência e inovação.
