Mesmo com avanços significativos na pesquisa e no desenvolvimento industrial, a transição para uma bioeconomia sustentável na Alemanha segue enfrentando entraves estruturais e funcionais. Um estudo conduzido por Alexandra Gottinger, Luana Ladu e Nils Grashof identificou três grandes obstáculos que limitam o sistema de inovação tecnológica do setor: incerteza sobre matérias-primas (feedstock), incerteza de mercado e incerteza política. A análise se concentrou em 179 instrumentos de políticas públicas adotados entre 2006 e 2024, e avaliou sua capacidade adaptativa diante desses problemas.
Os dados mostram que, embora exista um compromisso estatal com a bioeconomia desde 2010, com estratégias coordenadas entre ministérios e um ecossistema robusto de pesquisa, os instrumentos de política adotados são predominantemente abordagens brandas, como campanhas informativas e projetos de monitoramento. Medidas regulatórias mais firmes, capazes de impulsionar mercados ou transformar estruturas resistivas, permanecem em segundo plano.
Um dos principais gargalos é a incerteza quanto à disponibilidade e sustentabilidade da biomassa. Apesar dos esforços em desenvolver certificações e sistemas de monitoramento, como o ISCC, problemas de credibilidade e falhas de coordenação continuam. A ausência de redes industriais voltadas à valorização de rotas tecnológicas para biomassa também limita a superação desse bloqueio.
Quanto à incerteza de mercado, há progressos, como o estabelecimento do Fundo do Futuro, projetado para alavancar até €30 bilhões em capital de risco. No entanto, esses recursos ainda não estão ligados diretamente a soluções bioeconômicas. A Alemanha carece de instrumentos voltados especificamente à criação de demanda para produtos bio-based, como cotas obrigatórias ou aquisição pública sustentada. Além disso, a fragmentação entre padronizações técnicas e regulamentos em vigor dificulta a consolidação de mercados ainda em estágio inicial.
Já a incerteza política está associada à baixa previsibilidade e coordenação das políticas públicas. Mesmo com o estabelecimento de conselhos consultivos e grupos interministeriais, a falta de continuidade desses órgãos e a sub-representação de atores da sociedade civil geram desconfiança e dificultam a elaboração de diretrizes estáveis e inclusivas. Programas como o SYMOBIO ofereceram bases para o monitoramento sistêmico, mas permanecem limitados em escopo e duração.
Apesar de certo grau de adaptabilidade na política pública – evidenciado pela introdução ou modificação de instrumentos após 2020 –, o estudo conclui que as mudanças são lentas e insuficientes para mitigar os problemas fundamentais. A ausência de políticas mais assertivas, como taxação de carbono ou exigências obrigatórias de conteúdo bio-based, mantém o sistema preso a estruturas fósseis e impede um avanço mais coeso.
Os autores recomendam quatro ajustes prioritários: alinhar normas técnicas às operações e marcos regulatórios; melhorar a coordenação entre os níveis governamentais; garantir uma atuação mais estratégica na compra pública de bens bioeconômicos; e incorporar instrumentos regulatórios que promovam ruptura nos sistemas tradicionais baseados em carbono. Para tanto, é necessário repensar tanto o design como a permanência das intervenções políticas, indo além do foco em inovação tecnológica para atuar também nos dispositivos socioeconômicos e institucionais que moldam os mercados.
Por fim, o trabalho sugere que a eficácia da transição sustentável depende da capacidade do Estado em combinar políticas de apoio à inovação com mecanismos que desestabilizem o regime vigente e configurem novas “estruturas de oportunidade” para agentes econômicos. Trata-se menos de ampliar o cardápio de políticas e mais de garantir sua coerência e capacidade de indução sistêmica.
