Em meio aos impactos devastadores da guerra em sua economia rural, a Ucrânia começa a delinear os caminhos para sua reconstrução com base em uma abordagem mais integrada e sustentável. De acordo com um estudo recente, a The Bioeconomic Basis of Post-War Recovery of Rural Economy, a bioeconomia desponta como eixo central para revitalizar a produção agrícola, restaurar recursos naturais e criar empregos nas regiões mais atingidas pelo conflito.
Embora o país continue a figurar como um dos principais produtores mundiais de grãos, as perdas acumuladas com a guerra incluíram danos à infraestrutura, contaminação do solo, cadeias logísticas desorganizadas e redução das exportações agrícolas. A pesquisa mostra que, para reverter esse quadro, será preciso articular uma estratégica transição para novos modelos de produção baseados na economia circular e no uso racional de recursos biológicos.
Uma das diretrizes é a implementação de tecnologias bioorientadas na modernização da agricultura. Isso envolve o aproveitamento de resíduos agrícolas para gerar novos produtos e energia, por meio de processos como a compostagem e a produção de bioenergia. Em 2023, o país alcançou um índice recorde na destinação de resíduos agrícolas, com mais de 85% sendo apropriados por meio de métodos de descarte seguro. No entanto, apenas 0,1% dos resíduos orgânicos foram compostados, evidenciando um grande potencial ainda inexplorado.
Outro aspecto crítico é a reestruturação da produção orgânica, que hoje cobre 149 mil hectares, sendo pouco mais da metade certificados. O estudo aponta grande desigualdade regional nesse setor: áreas do oeste como Zhytomyr e Poltava apresentam elevada concentração de terras orgânicas devido a melhores condições climáticas e maior acesso à infraestrutura; por outro lado, regiões orientais, afetadas diretamente pelos conflitos, praticamente não registram produção orgânica.
O documento destaca também a necessidade de reformas no manejo de recursos hídricos, particularmente na agricultura irrigada, e no apoio financeiro a pequenos produtores — os principais responsáveis pela geração de empregos no meio rural. A publicação defende que a recuperação da economia rural passa pela ampliação da infraestrutura para coleta e separação de resíduos e pela adoção de uma estrutura de governança de múltiplos níveis, integrando esferas locais, estaduais, empresariais e de consumidores.
Nesse contexto, a Estratégia da Bioeconomia da União Europeia surge como inspiração, com diretrizes centradas em sustentabilidade, circularidade e uso eficiente dos recursos naturais. A adesão a princípios alinhados ao Pacto Verde Europeu poderá, segundo os autores, acelerar a reconstrução econômica e fortalecer a integração da Ucrânia ao mercado europeu.
A meta, definida na estratégia de desenvolvimento agrícola e rural até 2030, é modernizar o setor com investimentos em tecnologias sustentáveis, ampliar o uso de resíduos agroindustriais como recurso, recuperar áreas agriculturáveis e elevar a produtividade. Em números, a estratégia prevê elevar a reciclagem de resíduos agrícolas de 23%, em 2020, para 60% até 2030, e expandir as terras orgânicas de 0,6% para 3% da área agrícola total.
Diante dos desafios estruturais e da limitação de recursos públicos, a viabilização desse plano exigirá uma institucionalidade mais robusta para o setor ambiental. Em 2023, investimentos em gestão de resíduos no setor agro representaram apenas 1,1% do total destinado a proteção ambiental, com clara concentração de recursos em outras áreas.
Apesar das limitações, a recente aprovação da Lei de Gestão de Resíduos, harmonizada com diretrizes da União Europeia, é vista como avanço. A descentralização de competências para entidades locais e a previsão de novas fontes de financiamento são consideradas premissas importantes para a formação de um sistema integrado de gestão de resíduos rurais.
Adotar tecnologias de bioenergia é outro vetor promissor para a recuperação da segurança energética do país. A conversão de biomassa em energia pode evitar a emissão de até 8,2 milhões de toneladas de CO₂, além de diversificar a matriz energética e gerar receitas adicionais para os produtores.
A pesquisa conclui que a bioeconomia não deve ser apenas um modelo de produção, mas um eixo estruturante da reconstrução econômica da Ucrânia. Isso implica não só restaurar capacidade produtiva, mas reconfigurar as bases institucionais, ecológicas e sociais da economia rural. Nesse cenário, a racionalização do uso da terra, redução do desperdício e o fortalecimento das cadeias locais de produção tornam-se ações estratégicas para a sustentabilidade de longo prazo.
Fonte: The Bioeconomic Basis of Post-War Recovery of Rural Economy
