Bioeconomia do selênio propõe transformar resíduos de mineração em produtos de alto valor

Selenium, ao mesmo tempo um poluente ambiental e um elemento crítico para diversas indústrias, está no centro de uma proposta inovadora liderada pela Universidade da Colúmbia Britânica (UBC), no Canadá. Um relatório detalhado apresentado pelo Bradshaw Research Institute for Minerals and Mining (BRIMM) propõe transformar os resíduos industriais ricos em selênio gerados pela mineração em um recurso estratégico de valor para uma nova bioeconomia do selênio.

As operações de mineração, especialmente de carvão metalúrgico, como as da Elk Valley Resources (EVR), produzem lodos ricos em selênio como subproduto do tratamento de águas contaminadas. Embora esses sistemas reduzam os níveis de contaminação ambiental, o selênio é concentrado em resíduos considerados perigosos, gerando uma responsabilidade ambiental duradoura. Um único complexo de tratamento pode gerar até 668 toneladas de lodo por ano contendo selênio, que precisa ser transportado e descartado em aterros especializados.

Em contrapartida, há um aumento global na demanda de selênio para uso em setores estratégicos como energia, eletrônicos, saúde e agricultura. O Canadá, que produz menos de 4% do selênio refinado mundial, enfrenta um paradoxo: gasta bilhões para eliminar um elemento essencial que acaba descartado, enquanto depende de importações da China, Japão e Rússia para abastecer sua indústria.

O BRIMM propõe uma abordagem circular que envolve o uso de biotecnologia e engenharia de processos para recuperar e transformar o selênio extraído dos lodos em produtos de alto valor, como seleno-aminoácidos para fertilizantes e suplementos nutricionais, ou compostos bioativos para uso farmacêutico e químico-industrial. Essa transição permitiria reduzir custos e riscos ligados ao manuseio e transporte de resíduos, ao mesmo tempo em que cria oportunidades econômicas e reduz impactos ambientais.

A estratégia contempla o uso de sequenciamento genético avançado e química analítica para mapear as comunidades microbianas que operam nas estações de tratamento. A ideia é transformar esses sistemas atualmente tratados como caixas-pretas em processos otimizáveis, por meio da identificação e engenharia de microrganismos capazes de metabolizar o selênio de forma eficaz e segura.

Adicionalmente, o relatório explora o uso de tecnologias como a liquefação hidrotérmica, já aplicada em plantas-piloto para processamento de esgoto urbano em British Columbia, para transformar o lodo de selênio em bio-óleos combináveis com óleos pesados da indústria petroquímica. Outros elementos presentes nos resíduos, como telúrio, fósforo e manganês, seriam também recuperados, formando uma cadeia de valorização integrada.

O documento destaca a urgência de políticas que tratem o lodo de selênio não como lixo tóxico, mas como matéria-prima valiosa para uma bioindustrialização focada em economia circular. Para isso, são necessários investimentos coordenados em biologia sintética, desenvolvimento de mercado e parcerias intersetoriais. Um passo nessa direção já foi dado com o lançamento da Selenide Consulting Inc., que visa articular a colaboração entre universidades, setor minerador e empresas de biotecnologia.

A proposta da bioeconomia do selênio envolve diversas frentes e se alinha às demandas globais de sustentabilidade e uso eficiente de recursos. A transformação de um resíduo problemático em insumo para setores estratégicos representa uma mudança de paradigma. Contudo, sua viabilidade dependerá do desenvolvimento tecnológico contínuo, da capacidade analítica para caracterizar os resíduos e da construção de uma infraestrutura de reaproveitamento industrial compatível com os diversos tipos de lodo gerados no país.

Os pesquisadores do BRIMM alertam que a inação pode agravar os problemas atuais de armazenamento de lodo e emissões acidentais, como já ocorrido na mina Mount Polley. O reaproveitamento desses resíduos oferece, assim, uma saída viável para reduzir riscos operacionais e ambientais, ao mesmo tempo em que abre uma nova fronteira de oportunidades industriais e tecnológicas dentro da bioeconomia.

Fonte: Channelling Mine Water into the Selenium Bioeconomy

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