Choque em Ormuz reposiciona transição climática e leva biodiversidade ao centro das finanças

O primeiro trimestre de 2026 marcou uma inflexão na forma como investidores e governos passaram a avaliar a transição climática. O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, em resposta aos ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro, expôs o custo imediato de uma economia dependente de rotas fósseis vulneráveis: o barril de Brent subiu de US$ 73 para US$ 112 em trinta dias, cerca de 150 navios ficaram retidos na entrada do estreito e 20% do petróleo mundial foi paralisado. O episódio deslocou a discussão do campo regulatório e reputacional para uma dimensão mais dura: segurança energética, inflação importada e risco geopolítico mensurável.

Essa mudança altera a base política da transição. A tese que nasceu apoiada na ciência climática e ganhou força econômica com a queda dos custos das renováveis passou a ser defendida também por razões estratégicas. Mesmo em um ambiente de rejeição à retórica climática nos Estados Unidos, a guerra no Oriente Médio forneceu um argumento pragmático para diversificação energética. A negociação para reabrir Ormuz e a discussão do G7 sobre a liberação de 1,2 bilhão de barris de reservas estratégicas reforçaram a percepção de que fontes renováveis não são apenas uma agenda ambiental, mas também uma resposta a gargalos físicos controlados por atores geopolíticos.

Na Europa, o movimento regulatório do trimestre também precisa ser lido por essa lente. O Omnibus Package, que simplificou normas de reporte corporativo e reduziu em 70% o volume de informações obrigatórias, foi interpretado por parte do mercado como um recuo. Mas o reposicionamento do Green Deal para o Clean Industrial Deal indica uma mudança de linguagem: menos ênfase em obrigações de transparência e mais foco em competitividade industrial, cadeias de suprimento e segurança estratégica. A transição não desaparece; ela passa a disputar prioridade com argumentos mais aderentes ao novo ambiente político europeu.

Esse contexto separa o desgaste do rótulo ESG da consistência da tese de transição. O rótulo acumulou ruído, abriu espaço para acusações de greenwashing e gerou fadiga em empresas que precisam de critérios econômicos para tomar decisões de capital. Mas os vetores apontados no trimestre permanecem: custos de energia renovável, risco de ativos fósseis, regulação europeia contra desmatamento e agora um prêmio geopolítico explícito sobre os combustíveis fósseis. Para investidores, a questão deixa de ser apenas aderência a uma agenda e passa a ser a identificação de empresas capazes de reduzir exposição a riscos físicos, regulatórios e de mercado.

Para o Brasil, a leitura é ambivalente. O país tem atributos que ganharam valor nesse cenário: maior biodiversidade terrestre, matriz elétrica com mais de 80% de origem renovável e produção agrícola em escala global com potencial de redução de emissões por unidade de produto. Ao mesmo tempo, a captura desse valor enfrenta obstáculos internos: Selic estruturalmente elevada, câmbio pressionado e fragilidade fiscal com ajuste projetado para 2027 elevam o custo de capital e retardam a conversão da vantagem estrutural em fluxo de investimento. A direção parece mais clara do que o ritmo.

A formalização financeira da biodiversidade amplia essa oportunidade e também suas incertezas. A proteção e restauração da natureza demandariam ao menos US$ 700 bilhões por ano, segundo estimativa das Nações Unidas; desse total, cerca de US$ 200 bilhões teriam de vir do setor privado. Os créditos de biodiversidade surgem como uma tentativa de canalizar recursos, com demanda potencial de US$ 7 bilhões em 2030, embora o mercado ainda movimente menos de US$ 1 milhão em compras. Diferentemente do carbono, esses créditos não se baseiam em uma unidade universal: podem medir, por exemplo, a presença de onças-pintadas no Pantanal ou a proteção de 10 metros quadrados por 30 anos, como no modelo da colombiana Terrasos.

As críticas acompanham o crescimento do interesse. Há dúvidas sobre métricas, integridade, uso como compensação e impactos sobre povos indígenas e comunidades tradicionais. No Brasil, o Paraná anunciou durante a COP16 a primeira política subnacional do mundo para créditos de biodiversidade, enquanto a Associação Sociocultural Yawanawá desenvolveu uma metodologia própria em parceria com Wildlife Works e Forest Trends. O ponto sensível é a governança: quem administra, quem monitora, como se garantem direitos territoriais e como se evita que a promessa de financiamento substitua a obrigação de prevenir danos.

O avanço dos padrões de reporte reforça essa transição das ideias para os sistemas de gestão. A Taskforce on Nature-Related Financial Disclosures consolidou uma linguagem para riscos, dependências e oportunidades ligados à natureza, partindo de mais de 3 mil possíveis indicadores para 14 métricas centrais. O movimento ocorre após a adoção pioneira, pela Comissão de Valores Mobiliários, do padrão climático do ISSB para o setor financeiro brasileiro. Para empresas e investidores, a mensagem é objetiva: natureza, energia e risco geopolítico estão entrando na contabilidade estratégica. Quem entender essa convergência antes do consenso poderá proteger valor, acessar capital e redesenhar cadeias produtivas com menos exposição a choques externos.

Fonte: Foi preciso uma guerra para tese climática virar consenso

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