Áreas úmidas do Cerrado guardam carbono milenar e expõem fragilidades na proteção do bioma

Campos úmidos e veredas do Cerrado podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, um volume descrito no estudo como cerca de seis vezes o estoque de biomassa de florestas típicas da Amazônia. A pesquisa, publicada na revista New Phytologist e liderada por cientistas do Instituto de Biologia da Unicamp, reforça o peso climático de ecossistemas pouco visíveis no território e, por isso, frequentemente subestimados em diagnósticos e decisões de uso da terra.

As datações indicam que, em média, o carbono está no local há 11 mil anos, e, em alguns casos, há até 20 mil anos. Esse estoque milenar é atribuído a um acúmulo lento, favorecido pela falta de oxigênio em solos saturados de água. Na prática, o trabalho chama atenção para uma diferença central em termos de gestão: enquanto perdas de carbono em árvores podem ser parcialmente recuperadas por restauração florestal em décadas, o carbono do solo em áreas úmidas do Cerrado levaria dezenas de milhares de anos para se recompor.

Como esses ambientes dependentes do lençol freático ainda são pouco estudados, os pesquisadores fizeram um primeiro mapeamento combinando sensoriamento remoto e aprendizado de máquina. A estimativa é que essas áreas possam cobrir 167 mil km², o equivalente a cerca de 8% do bioma e 2% do território brasileiro, pelo menos seis vezes mais do que se supunha anteriormente. O Cerrado, descrito como “berço de águas”, é associado no texto à contribuição para dois terços do abastecimento de grandes bacias hidrográficas, com destaque para as regiões Sul e Sudeste.

As veredas, citadas como um tipo de turfeira, abrigam também os chamados olhos d’água, afloramentos naturais do lençol freático, incluindo os de caráter difuso, que são protegidos pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012) como Áreas de Preservação Permanente. Mesmo assim, o estudo descreve alta vulnerabilidade dessas formações a mudanças no regime hídrico associadas à expansão agrícola, desmatamento, drenagem de áreas úmidas, pequenas barragens e uso intensivo de água para irrigação. Os autores alertam que, mesmo quando restam fragmentos preservados, alterações no entorno podem baixar o lençol freático e converter o solo em fonte de emissão de carbono.

O trabalho também coloca na balança o papel desses ambientes como fontes de metano, especialmente onde há inundação permanente, e aponta que temperaturas mais elevadas intensificam as emissões. Por espectroscopia, os pesquisadores observaram baixa estabilidade do carbono em comparação com outras turfeiras tropicais, e estimaram que cerca de 70% das emissões anuais de dióxido de carbono e metano ocorreram durante a estação seca. Como a vegetação é majoritariamente formada por gramíneas que se decompõem mais facilmente, o carbono armazenado pode virar emissões quando os solos secam, um risco que o artigo associa ao aumento de estações quentes e secas.

Para chegar aos números, a equipe coletou amostras de solo profundo, com até quatro metros, em veredas e campos úmidos em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, em 2023. As medições de gases foram feitas com um LI-COR Trace Gas Analyzer conectado a anéis de PVC instalados no solo, permitindo registrar dióxido de carbono e metano. A datação contou com colaboração de cientistas do Instituto Max Planck, e o mapeamento envolveu especialistas em sensoriamento remoto da Unicamp e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

O estudo chega em um momento em que o bioma segue sob pressão: de agosto de 2025 a janeiro deste ano, alertas de desmatamento no Cerrado somaram 1.905 km², ante 2.025 km² no período anterior, segundo o Deter do Inpe. Levantamento do MapBiomas citado no texto indica que 47% do Cerrado é ocupado por uso antrópico (dados de 2024), com 24% em pastagem e 13% em agricultura, majoritariamente soja. Ao final, os autores defendem ampliar a proteção de áreas úmidas, melhorar a conscientização sobre zonas alimentadas por águas subterrâneas e aprofundar o mapeamento e a pesquisa para orientar conservação e restauração; o artigo está disponível em https://nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.71027.

Fonte: Pesquisa mostra que áreas úmidas do Cerrado armazenam mais carbono do que florestas na Amazônia

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