Estudo da Poli-USP mapeia como fundos brasileiros estruturam o investimento de impacto e onde o processo ainda esbarra em regulação

Um trabalho de formatura apresentado à Escola Politécnica da USP analisa como fundos de investimento de impacto no Brasil organizam suas rotinas de decisão, do primeiro contato com potenciais investidas ao acompanhamento após o aporte. A pesquisa usa como referência um modelo internacional de cinco etapas, proposto por Borrello, Bengo e Moran (2023), e busca entender até que ponto práticas observadas em outros países se repetem, ou precisam ser adaptadas, no contexto brasileiro.

O estudo adota uma abordagem qualitativa e exploratória, com casos múltiplos envolvendo três gestoras nacionais e três organizações investidas. A base empírica vem de entrevistas semiestruturadas e de triangulação com dados secundários, estratégia usada para cruzar as falas com materiais disponíveis e reduzir vieses de interpretação. O objetivo central é destrinchar como os processos são, de fato, operados e quais critérios ganham peso na prática.

Entre os achados, a pesquisa identifica forte convergência entre as gestoras analisadas em três pontos: a priorização da intencionalidade dos fundadores, o rigor metodológico na seleção e a adoção de práticas colaborativas de mensuração de impacto. Em outras palavras, o processo tende a valorizar a clareza de propósito do time empreendedor, procedimentos estruturados para filtrar e validar oportunidades, e a construção conjunta de como medir resultados socioambientais ao longo do investimento.

Outro elemento recorrente é a centralidade do suporte estratégico pós-investimento. O trabalho aponta que, além do capital, a etapa posterior ao aporte é tratada como parte integrante do modelo: investidores e investidas operam uma relação que vai além de monitoramento financeiro, com ênfase em apoio e acompanhamento para viabilizar a estratégia e sustentar a entrega de resultados.

O estudo também descreve o ecossistema brasileiro como imaturo e em desenvolvimento, com duas fricções de fundo: heterogeneidade filosófica, diferentes entendimentos e prioridades dentro do próprio campo, e desafios regulatórios. Mesmo assim, a análise observa alinhamento com padrões internacionais em aspectos operacionais considerados essenciais, sugerindo uma aproximação de práticas, ainda que em um ambiente institucional menos estabilizado.

No recorte relacional, a pesquisa caracteriza o vínculo entre investidores e organizações investidas como uma parceria estratégica de longo prazo, sustentada por confiança, alinhamento de valores e compromisso com impacto socioambiental mensurável. Essa arquitetura de relacionamento aparece como um componente do próprio processo: não é apenas “originação e cheque”, mas um ciclo que depende de governança, acompanhamento e ajustes.

Ao final, o trabalho reúne recomendações para fortalecer o setor à medida que ele evolui no Brasil, amarrando o diagnóstico operacional às barreiras de ecossistema identificadas no campo, como a regulação e a diversidade de visões sobre o que priorizar. A conclusão geral é que, embora o país opere em um estágio menos consolidado, os fundamentos práticos do processo, seleção rigorosa, mensuração construída com as investidas e suporte pós-investimento, já se organizam em linha com referências internacionais.

Fonte: v6 – TF – Guilherme Amigo

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