Uma pesquisa conduzida na região fronteiriça entre Equador e Peru avaliou o potencial econômico e ambiental da produção de bioenergia a partir de resíduos biodegradáveis, articulando essa atividade com uma abordagem de economia circular. Os resultados indicam que, quando consideradas de forma isolada, iniciativas de geração de eletricidade a partir de biogás não se mostram viáveis financeiramente. No entanto, dentro de um modelo integrado que aproveita simultaneamente os subprodutos da digestão anaeróbia – como biofertilizantes –, o cenário se transforma.
O estudo analisou o aproveitamento de resíduos sólidos urbanos e esterco bovino por meio de digestão anaeróbia em duas fases, com uso de recirculação de chorume. Na segunda fase experimental, a pureza de metano no biogás atingiu 93,89%, após 50 dias de retenção, representando um dos maiores rendimentos na literatura recente para essa configuração. A primeira fase, com 60 dias, alcançou uma conversão de metano de 70,73%.
Essa eficiência energética traduz-se em ganhos econômicos significativos, com valor presente líquido (NPV) estimado entre 453 milhões de dólares no nível local e 3,426 milhões de dólares regionalmente, ao longo de um horizonte projetado até 2028. O estudo mostra também que o custo de oportunidade de não mitigar emissões de CO2 com esse tipo de solução é de 0,34 milhões de dólares localmente e 2,58 milhões de dólares em escala regional.
Segundo os autores, promover a integração sistêmica de segmentos como o manejo de esterco, a produção de bioenergia e o uso de subprodutos como fertilizantes é essencial para o desenvolvimento efetivo da bioeconomia na região. A produção isolada de eletricidade a partir de biogás, embora viável do ponto de vista ambiental, não assegura retorno financeiro suficiente.
Foram utilizados métodos como amostragem estratificada por conglomerados para avaliar a disponibilidade de resíduos, cromatografia gasosa para medir o conteúdo de metano e análises de custo-benefício usando uma taxa de desconto anual de 8,64%. As projeções foram calibradas com base em dados demográficos e de inventário pecuário da região.
Apesar dos bons resultados, os pesquisadores alertam para a discrepância entre o volume de biogás obtido – 11,9 m³ – e valores superiores reportados por outros estudos, como os 96,6 m³ do trabalho de referência usado na modelagem. Isso aponta para a necessidade de futuras pesquisas sobre a hermetização dos biodigestores e eficiência da coleta de biogás.
Além disso, o potencial da biomassa digerida como insumo agrícola – dada a presença de nitrogênio, fósforo e potássio – deverá ser avaliado em estudos futuros. Esse aspecto pode ampliar ainda mais a viabilidade e aplicabilidade do modelo proposto, reforçando seu papel estratégico em zonas rurais e periféricas.
Com base nas evidências, os autores concluem que propostas de bioenergia só alcançam plena viabilidade quando inseridas em cadeias de valor mais amplas, capazes de recuperar material, gerar energia e fornecer insumos agrícolas, otimizando recursos e reduzindo emissões de gases de efeito estufa. Para países como Equador e Peru, esse tipo de iniciativa representa uma alternativa promissora para impulsionar o desenvolvimento regional com base em recursos biológicos locais e práticas sustentáveis.
Fonte: Bioenergy from Biomass as an Ecuador-Peru Border Circular Economy Strategy
