Um estudo sobre a cadeia de biocosméticos na Amazônia brasileira analisou como organizações locais acumulam capacidades tecnológicas para produzir e inovar, e por que esses avanços ocorrem em ritmos tão diferentes dentro de uma mesma cadeia. O recorte empírico se concentrou nos estados do Amazonas e do Pará, com evidências longitudinais reunidas entre 2012 e 2024 e um desenho qualitativo baseado em dez organizações que ocupam posições distintas, de comunidades organizadas e cooperativas a pequenas e médias empresas, fornecedores especializados e uma empresa líder.
A pesquisa descreve uma cadeia com quatro etapas: (1) atividades agroextrativistas e de cultivo por comunidades, associações e cooperativas; (2) processamento primário e intermediário de insumos vegetais, como a extração de óleos, manteigas, extratos e pós; (3) formulação e manufatura de produtos finais; e (4) logística, distribuição e acesso a mercados. Segundo o levantamento, a dinâmica regional combina forte dependência de conhecimentos tácitos e ecológicos, desafios logísticos e uma crescente exigência por padrões técnicos, regulatórios e certificações socioambientais.
Um dos pontos centrais é a coexistência de dois arranjos produtivos. Em um deles, a coordenação é exercida por uma empresa líder, que estrutura relações de fornecimento de longo prazo, transfere conhecimento e induz padrões técnicos e ambientais. No outro, atores independentes operam de forma mais fragmentada e autônoma, porém com restrições de escala, financiamento e acesso a conhecimentos mais avançados. A pesquisa aponta que essas diferenças de governança e acesso a conhecimento ajudam a explicar por que parte da cadeia avança para atividades de maior valor agregado, enquanto outra permanece presa a etapas menos complexas.
O estudo detalha mudanças já observadas no território: três comunidades locais analisadas, por meio de associações e cooperativas, instalaram pequenas agroindústrias e passaram a entregar matérias-primas processadas, mais próximas do fim da cadeia, como óleo de andiroba, manteiga de murumuru, óleo essencial de pataqueira e pó de ingá. Além disso, foram identificados quatro fornecedores no Pará, próximos a Belém, incluindo três pequenas empresas especializadas em ingredientes processados e uma filial de uma empresa alemã em Benevides, descrita como fornecedora exclusiva da principal empresa brasileira do setor, que opera no mesmo espaço.
Nos resultados, as evidências indicam alta heterogeneidade entre as dez organizações: todas começaram restritas a capacidades de produção, mas divergiram quanto à velocidade, profundidade e estabilidade ao avançar rumo a capacidades de inovação. Fornecedores regionais como Fortparaoil, Amazonoil, Bielus e Cofruta evoluíram por aprendizagem incremental associada à resolução de problemas produtivos e chegaram a um nível de inovação básica ao desenvolver novas aplicações, incluindo a reutilização do resíduo sólido (“torta”) da extração de óleos como insumo esfoliante, e ajustes em secagem e refino para atender padrões de qualidade mais exigentes.
Entre cooperativas comunitárias, o papel das parcerias aparece como determinante. A Amaru é descrita como avançando por melhorias sucessivas em processos, com a introdução de secadores rotativos e controle de umidade, para reduzir acidez e elevar a qualidade de óleos e manteigas. Já a Aprocamp apresentou trajetória mais profunda ao internalizar capacidades avançadas ligadas ao cultivo sustentável de pataqueira fora do habitat natural e à extração de óleos essenciais, atividades que não existiam anteriormente na comunidade. No elo de manufatura, Ekilibre e Pharmakos exibem trajetórias distintas: a primeira atingiu capacidades intermediárias ao lançar produtos como protetor solar natural e creme dental sem flúor, mas depois enfrentou dificuldades de sustentar esse patamar e passou a focar na padronização e industrialização; a segunda permaneceu em inovação básica por adaptações incrementais em formulações com ingredientes amazônicos.
A partir dessas trajetórias, a pesquisa identifica dois padrões de inovação. O primeiro é a inovação vertical induzida pela empresa líder, na qual comunidades e fornecedores avançam do fornecimento primário ao processamento e, em alguns casos, à inovação de processo, apoiados por coordenação tecnológica, contratos de longo prazo e transferência intensiva de conhecimento. O segundo padrão é o da inovação incremental autônoma entre atores independentes, que tende a ser mais lenta e vulnerável, devido a parcerias fragmentadas, menor previsibilidade de demanda e limitações financeiras. Como implicação para políticas públicas, o artigo defende que iniciativas para a região precisam ir além do apoio financeiro, investindo na acumulação de capacidades tecnológicas com formação técnica e gerencial continuada, infraestrutura local de processamento e estímulo a parcerias de longo prazo entre empresas, universidades e comunidades, com instrumentos sensíveis às diferentes trajetórias organizacionais.
Fonte: ÁREA TEMÁTICA: GESTÃO DA INOVAÇÃO, ESTRATÉGIA E DESENVOLVIMENTO NACIONAL
