Um estudo publicado em 26 de janeiro de 2026 analisou como a AAPRESID, associação argentina de produtores ligada à semeadura direta, atua na promoção de inovações associadas à bioeconomia entre seus membros. A pesquisa combinou entrevistas com informantes qualificados e um levantamento com 142 agricultores associados, buscando identificar que tipo de inovação esses produtores implementam, quais fatores impulsionam ou limitam as iniciativas e qual é o papel da organização nesse processo.
O desenho do estudo incluiu 7 entrevistas com atores-chave da entidade e 6 entrevistas com produtores individuais, além de uma pesquisa enviada a 1164 membros (com taxa de resposta de 12%), aplicada virtualmente entre outubro e novembro de 2024. Os autores destacam a possibilidade de viés por não resposta e ressaltam que não ofereceram uma definição prévia do termo aos participantes, justamente para captar como os agricultores descrevem o conceito a partir de suas próprias referências e vocabulário.
Fundada em 1989, a AAPRESID nasceu para disseminar práticas e tecnologias voltadas a reduzir a erosão e melhorar condições do solo, e hoje reúne cerca de 1800 membros, com maior presença na região pampeana. O estudo descreve uma lógica de trabalho baseada em horizontalidade e em “aprender produzindo”, organizada em três instrumentos: Grupos Regionais (encontros mensais de troca técnica, produtiva e de negócios), o Sistema Chacras (projetos definidos por demandas dos produtores, executados em áreas reais de produção com rigor científico) e Redes Temáticas para gerar, analisar e difundir conhecimento, incluindo exemplos como Rede de Carbono, Rede de Culturas de Serviço e Rede de Biológicos.
Ao medir familiaridade com o conceito, o levantamento encontrou um retrato heterogêneo: 20% se declararam muito familiarizados, 56% moderadamente familiarizados e 24% não familiarizados. Na descrição por palavras-chave, a pesquisa registrou forte presença de sustentabilidade, negócios e economia, economia circular, agregação de valor, recursos naturais e eficiência. Também foi observada coocorrência frequente entre “sustentabilidade” e “negócios e economia”, sugerindo que muitos associados associam o tema a uma atividade produtiva com orientação ambiental e econômica ao mesmo tempo.
Na prática, as inovações mais difundidas entre os associados (implementadas por mais de 75%) estão concentradas em ações de conservação e fertilidade do solo, diversificação e rotação de culturas, boas práticas no uso de agroquímicos, culturas de cobertura e adubos verdes e tecnologias como agricultura de precisão e digitalização. Ao classificar as iniciativas, o estudo aponta predominância de inovações sustentáveis (43%) e produtivas (34%), enquanto as voltadas à substituição de recursos fósseis (13,5%) e à geração de novos produtos (9,6%) aparecem com menor peso.
O trabalho também detalha a rede de atores mobilizada na construção dessas inovações. A AAPRESID surge como o nó central para os agricultores, articulando conexões com organizações públicas e privadas. Entre os atores públicos, o INTA se destaca pela geração e transferência de conhecimento via estações experimentais e centros de pesquisa; o CONICET aparece como relevante na produção de conhecimento mais básico, com vínculo mais fraco diretamente com produtores, mas importante em projetos conjuntos com a associação; e as universidades têm papel menor, com poucos laços diretos com agricultores. Do lado privado, fornecedores de insumos, máquinas e serviços mantêm relações fortes com produtores e também participam de processos de validação técnica dentro das redes da entidade.
Ao investigar o que acelera e o que trava a adoção de inovações, os associados atribuíram maior peso a fatores como disponibilidade de informação, ligações com organizações científicas e tecnológicas e assistência técnica, elementos diretamente conectados aos mecanismos de extensão descritos no estudo. Já as barreiras mais citadas foram falta de apoio local, limitações de políticas nacionais e de marcos regulatórios, além de financiamento, oportunidades de mercado, mão de obra qualificada e logística. Em paralelo, os impactos mais mencionados (por mais de 75%) incluem melhoria das condições do solo, geração de novo conhecimento sobre agricultura e conservação, redução do uso de agroquímicos, redução de risco, aumento de produção e aumento de biodiversidade; por outro lado, foram avaliados como menos expressivos efeitos sobre infraestrutura, condições de vida locais, geração de empregos e novos empreendimentos.
Com base em análise de agrupamentos, os autores propõem uma tipologia de três perfis: “estabilizados” (n=58), com menor média de inovações e foco em práticas já consolidadas; “pró-tecnológicos” (n=70), mais jovens e com maior ênfase em tecnologias e processos; e “avançados” (n=14), os mais familiarizados com o tema e com iniciativas mais diversificadas, como reciclagem de biomassa, produção de energia, uso de bioinsumos e geração de novos produtos. O estudo relata que a média de impactos cresce com o número de inovações (r²=0,51; p<0,001) e sugere que diferenciar perfis pode ajudar associações a calibrar estratégias de informação, assistência e conexões de mercado, ao mesmo tempo em que destaca obstáculos estruturais, como políticas, regras e acesso a financiamento, fora do alcance direto dessas organizações.
