Um estudo publicado na European Economic Letters analisa a trajetória recente e as perspectivas da bioeconomia na Índia, que teria avançado de US$ 10 bilhões em 2014 para US$ 165,7 bilhões em 2024. O trabalho aponta que a expansão é atribuída à combinação entre biotecnologia, ferramentas digitais e princípios de economia circular, com expectativa de alcançar algo entre US$ 270 e US$ 300 bilhões até 2030, o que representaria 3,3% a 3,5% do PIB do país.
A publicação descreve uma estratégia de crescimento assentada em três frentes, agricultura, bioindustrial e serviços, e estima que esses segmentos já teriam ultrapassado a marca de US$ 60 bilhões. No recorte setorial, o texto projeta uma biotecnologia mais presente em cadeias como enzimas (com potencial de gerar US$ 20 bilhões em valor) e biocombustíveis (próximos de US$ 50 bilhões), além de um avanço de BioServices para US$ 50 a 60 bilhões ou mais. No horizonte de curto prazo, a capacidade indiana de biocombustíveis é apresentada como em expansão de 5,2 bilhões de litros em 2021 para 10,1 bilhões em 2025, elevando a produção econômica do segmento de US$ 6 bilhões para US$ 20 bilhões.
No campo de saúde, o estudo ressalta o papel da Índia como fornecedora de medicamentos e vacinas de menor custo, citando que 25% das compras totais de vacinas da Organização Mundial da Saúde viriam de empresas indianas. Também indica uma ambição industrial para elevar o patamar da biofarmacêutica rumo a US$ 120–125 bilhões, com potencial de ampliar participação em vacinas e terapias dentro do mercado local de BioPharma e serviços associados.
O artigo, porém, não trata a curva de crescimento como inevitável. Ele lista gargalos de regulação (marco descrito como fragmentado e sujeito a divergências entre estados), dificuldades de financiamento devido ao retorno mais longo de iniciativas como bioplásticos e biocombustíveis, e entraves de propriedade intelectual, com processos considerados lentos e complexos. Soma-se a isso o risco de biopirataria e a baixa capacidade de escalar resultados de pesquisa por falta de conexões robustas entre academia e indústria, além de dependência de cadeias internacionais para insumos, equipamentos e tecnologias.
Há ainda riscos de base material e de aceitação: o texto menciona competição pelo uso da terra e conflitos de demanda por alimento e ração que pressionam a oferta de biomassa (como resíduos agrícolas), além de impactos potenciais sobre diversidade genética e ecossistemas quando recursos biológicos são explorados de forma excessiva. Eventos climáticos e mudanças em padrões de precipitação aparecem como ameaça adicional, ao lado da percepção pública sobre organismos geneticamente modificados e outras inovações, que pode atrasar a adoção de produtos e processos.
Como resposta a esse conjunto de barreiras, o estudo destaca a política BioE3 (Biotechnology for Economy, Environment, and Employment), lançada em 2024, com o objetivo de acelerar uma transição para modelos mais sustentáveis e impulsionar biomanufatura com foco em economia, ambiente e empregos. Entre os instrumentos propostos estão instalações avançadas de biomanufatura, clusters de biofoundries e hubs de biointeligência artificial, além de estruturas de produção piloto e pré-comercial para reduzir a distância entre laboratório e mercado, com ênfase em biossegurança e aderência a exigências regulatórias internacionais.
O texto também aponta programas e infraestrutura já em operação para compor esse esforço, como a National Biopharma Mission, liderada pelo Department of Biotechnology e pela BIRAC, com orçamento de US$ 250 milhões para apoiar 101 iniciativas envolvendo mais de 150 grupos e 30 micro, pequenas e médias empresas. O estudo menciona ainda 11 instalações compartilhadas para manufatura, testes e validação, além de estruturas de boas práticas de fabricação e laboratórios para análises e testes. Na frente de inovação, a BIRAC é descrita como um pilar para start-ups, com 95 sites de bioincubação e instrumentos de apoio como a Biotechnology Ignition Grant (até ₹ 50 lakh por 18 meses), além de fundos de equity voltados a prova de conceito e tecnologias mais próximas da comercialização.
Para sustentar as projeções, a publicação apresenta uma tabela de tendência (2020–2030) com componentes como Bio Pharma, Bio Agri, Bio Industrial, CRO/BioIT/Research e “Covid Economy & Others”, mostrando avanço anual em todos os grupos. A mesma seção consolida somatórios para o período, indicando 680 (Bio Pharma), 110 (Covid Economy & Others), 227,4 (Bio Industrial), 232,9 (CRO/BioIT/Research) e 228,3 (Bio Agri), além de médias e desvios-padrão para cada componente. A conclusão do estudo é que, se a BioE3 conseguir enfrentar os gargalos de regulação, infraestrutura, escalabilidade e confiança pública citados no diagnóstico, a Índia tende a combinar crescimento econômico com criação de oportunidades de trabalho e fortalecimento de cadeias produtivas ancoradas em inovação.
Fonte: Aligning-Bio-Economy-with-SDGs-2030-A-Special-Reference-to-India
