Um artigo de revisão publicado on-line em 27 de janeiro de 2026, assinado por pesquisador da Universidade Federal da Paraíba, organiza evidências recentes (2020–2026) sobre como microrganismos vêm sendo convertidos em plataformas produtivas para aplicações na indústria e na agricultura. O texto trata bactérias, fungos e microalgas como “fábricas” capazes de gerar compostos de alto valor e argumenta que a competitividade depende menos de um único avanço e mais da integração entre escolha do organismo, engenharia do processo e eficiência na purificação.
A revisão destaca que o ponto de partida é a seleção do chassi microbiano, porque atributos como robustez fisiológica, tolerância a estresses e estabilidade genética sob condições reais de cultivo condicionam produtividade e viabilidade de escalonamento. O artigo chama atenção para diferenças marcantes entre espécies e grupos: bactérias pela rapidez de crescimento e facilidade de manipulação; actinobactérias como Streptomyces pela capacidade de produzir metabólitos especializados; e fungos filamentosos e leveduras pela alta capacidade secretora, ainda que imponham desafios de reologia e transferência de oxigênio em biorreatores.
No caso das microalgas, o texto aponta potencial para modelos integrados de biorrefinarias, com ênfase em lipídios, pigmentos e compostos bioativos. Ao mesmo tempo, reconhece que a viabilidade econômica fica amarrada à produtividade de biomassa e à eficiência das etapas de colheita, e cita a integração do cultivo com reaproveitamento de nutrientes, captura de CO₂ e tratamento de efluentes como estratégias discutidas na literatura para reduzir custos e aproximar o setor de arranjos circulares.
Quando o foco se desloca para a planta industrial, a revisão sustenta que a eficiência do bioprocesso resulta do equilíbrio entre fisiologia celular e variáveis de engenharia. Entram nessa equação a composição do meio, o controle de temperatura, pH, oxigênio dissolvido e agitação, além da esterilidade para reduzir perdas por contaminação. O artigo também discute como a escolha do regime operacional, batch, fed-batch e contínuo, molda a produtividade e o controle da oferta de substrato, destacando o fed-batch como estratégia recorrente para evitar repressão metabólica e favorecer alta densidade celular.
Um ponto recorrente do trabalho é o peso do downstream (separação e purificação) na conta final e na qualidade do produto, com impacto direto na competitividade. A revisão afirma que o desenho mais ecoeficiente dessas etapas, com redução de consumo energético e maior recuperação, especialmente em meios diluídos, é determinante para viabilizar a produção em escala. Nesse contexto, ganha relevância o uso de tecnologias analíticas de processo, com PAT citado como abordagem para ampliar reprodutibilidade, rastreabilidade e capacidade de monitoramento em tempo real durante o processamento e o controle de qualidade.
Na frente de produtos, a revisão descreve a expansão do portfólio para enzimas, biopolímeros (como poli-hidroxialcanoatos), ácidos orgânicos, vitaminas e aplicações em saúde, incluindo estratégias de mineração genômica e ativação de vias biossintéticas em actinobactérias, além de plataformas em leveduras para produção de vacinas. Para sustentar esse avanço, o texto enfatiza o papel de ferramentas como CRISPR, biologia sintética e abordagens ômicas na identificação de gargalos e no aumento de previsibilidade de desempenho industrial, inclusive por meio de consórcios microbianos desenhados.
Na agricultura, o artigo trata bioinsumos e inoculantes como uma peça estratégica para reduzir dependência de insumos químicos e elevar eficiência nutricional, mas ressalta obstáculos técnicos como variabilidade de resposta em campo, estabilidade de formulações e necessidade de validação agronômica em diferentes condições. No recorte brasileiro, a revisão registra a existência de entraves regulatórios e desigualdades regionais na distribuição de unidades produtoras e aponta a Lei nº 15.070/2024 como marco recente que estabelece diretrizes para produção, registro, comercialização, uso e produção para uso próprio, com o objetivo de ampliar segurança jurídica e favorecer a expansão tecnológica do setor.
