Estratégias nacionais de bioeconomia na Europa ainda demonstram limitações significativas em alinhar suas narrativas com os objetivos concretos de sustentabilidade global estabelecidos na Agenda 2030, revela uma análise abrangente de 29 documentos de políticas públicas de 14 países e da União Europeia. Embora a maioria dos planos se alinhe com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), as referências à sustentação social, equidade e inclusão permanecem escassas.
O estudo, publicado na revista Sustainability Science, avaliou como as estratégias nacionais incorporam os dez princípios da FAO para uma bioeconomia sustentável e os 17 ODS da ONU. As análises indicam ênfase recorrente em temas ambientais, como a eficiência no uso de recursos, mitigação climática e conservação florestal — especialmente nos ODS 12 (consumo responsável), 13 (ação climática) e 15 (vida terrestre). Por outro lado, temas sociais como igualdade de gênero (ODS 5), educação (ODS 4) e saúde (ODS 3) aparecem pouquíssimo ou não são sequer mencionados.
Quase metade das estratégias ignora explicitamente os potenciais efeitos colaterais que a transição bioeconômica pode gerar, como aumenta a demanda por biomassa e pressão sobre recursos hídricos e ecossistemas. Mesmo quando desafios são reconhecidos, eles tendem a ser enquadrados como obstáculos superáveis por meio de inovação e financiamento, sem aprofundar o risco de disfunções sistêmicas ou retrocessos sociais e ambientais.
No nível da estratégia europeia de bioeconomia, há prevalência de um discurso voltado à descarbonização e à “. Os dados analisados sugerem que poucas estratégias abordam, por exemplo, como incentivar a transição justa para pequenos produtores ou comunidades rurais. Elementos de cooperação (Princípio 10), inclusão social (Princípios 4 e 8) e responsabilidade compartilhada (Princípio 9) são raramente mencionados, com menos de 80 referências no total entre todos os documentos nacionais e regionais.
Outro ponto crítico identificado é a desconexão entre os discursos positivos presentes nos planos de bioeconomia e as evidências disponíveis sobre os conflitos e compromissos reais entre ações bioeconômicas e sustentabilidade. Por exemplo, enquanto os países frequentemente associam o uso de biomassa com ganhos climáticos (ODS 13), estudos mostram que o uso intensivo pode comprometer segurança alimentar (ODS 2) e biodiversidade marinha (ODS 14), aspectos pouco considerados nas estratégias nacionais.
Mesmo instrumentos considerados como altamente positivos, como a utilização de madeira para construção civil ou embalagens biodegradáveis, são apresentados em muitos documentos como promessas tecnológicas, mas raramente acompanhados de vínculos diretos com metas e indicadores dos ODS. A análise mostra que as bioestratégias muitas vezes funcionam como repositórios de aspirações, em vez de guias operacionais fundamentados.
Houve avanços positivos em alguns países, como a Itália, que apresentou estratégia com seções detalhadas para setores como alimentos, pesca e reflorestamento, reconhecendo também os riscos associados às importações de biomassa de regiões com regulamentações ambientais precárias. A Finlândia, por sua vez, traça ações alinhadas com sua vocação florestal enquanto a Noruega destaca o uso sustentável de recursos marinhos. Ainda assim, mesmo essas estratégias não escapam da fragmentação e lacunas temáticas observadas no conjunto europeu.
Segundo os autores, a evolução das estratégias futuras depende de integrar uma abordagem mais sistêmica, com mecanismos de monitoramento, reconhecimento explícito de riscos e sinergias, e articulação com políticas globais como o Acordo de Paris e o European Green Deal. A recomendação é que os planos deixem de ser apenas listas de objetivos autodeclarados e avancem para ações coordenadas, multissetoriais e com governança transparente.
O estudo também alerta que, sem reconhecer os conflitos e limites da apropriação biomaterial em larga escala, a transição bioeconômica pode acabar replicando os mesmos padrões insustentáveis que pretende superar. O realinhamento das bioestratégias com os ODS depende da capacidade dos países de adotar um planejamento coerente, que inclua a equidade social e a restauração ecológica como eixos centrais.
Com as atuais estratégias ainda excessivamente ancoradas em promessas de tecnologia e crescimento verde, o risco de uma transição bioeconômica insustentável é real. Incluir mecanismos práticos de alinhamento com os ODS, com foco em transparência, justiça e regeneração, será essencial para que a bioeconomia cumpra seu potencial como vetor de transformação sistêmica.
Fonte: European bioeconomy strategies could better integrate sustainability agendas
