Fatores sociais e econômicos são decisivos para adoção da agricultura orgânica por pequenos produtores

Um estudo recente avaliou os fatores determinantes para a adoção da agricultura orgânica por pequenos produtores em países em desenvolvimento, com foco na Índia. Com base em 106 entrevistas realizadas via questionário estruturado, os pesquisadores identificaram que, apesar das vantagens ambientais e de mercado, a prática enfrenta diversos obstáculos entre os agricultores de pequena escala.

O estudo revelou cinco grupos de fatores que influenciam a transição para a agricultura orgânica: fatores sociais, econômicos, relacionados ao cultivo, ao mercado e às políticas públicas. Entre eles, os mais influentes são os sociais e econômicos, com destaque para a busca por alimentos de melhor qualidade, produção livre de químicos e benefícios à saúde. Do lado econômico, o “prêmio de preço” — valor adicional pago por produtos orgânicos — foi apontado como ponto central de atração.

Apesar da percepção dos benefícios ambientais da agricultura orgânica — como melhoria da fertilidade do solo e promoção da biodiversidade — boa parte dos agricultores ainda reluta em adotar tais práticas. As razões incluem custos de conversão elevados, perda temporária de produtividade nos primeiros anos e falta de assistência técnica e financeira adequada. No caso analisado, apenas 0,7% da área agricultável da Índia está convertida ao modo orgânico, o que sinaliza profunda lacuna entre políticas de incentivo e adoção efetiva.

O tempo médio de transição, de cerca de três anos, é um ponto crítico. Sem subsídios governamentais adequados para compensar perdas iniciais, muitos pequenos produtores abandonam ou nem iniciam o processo. O estudo destaca também que a infraestrutura deficiente — como transporte, energia elétrica e sistemas de irrigação — dificulta ainda mais o sucesso de modelos sustentáveis no campo.

Outro fator relevante é a carência de estratégias de capacitação. Dos agricultores entrevistados, 72,6% tinham experiência agrícola média, mas poucos tinham acesso formal a programas de treinamento. A ausência de orientações técnicas sobre certificação, rotação de culturas e gerenciamento de pragas limita a adesão a práticas orgânicas consistentes, sustentáveis e lucrativas.

A pesquisa também analisou o peso de incentivos governamentais. Embora o subsídio para fertilizantes orgânicos tenha tido boa avaliação, outros mecanismos como acesso a crédito, compensações financeiras para conversão e distribuição de ferramentas técnicas foram considerados ineficientes ou inexistentes pelos respondentes. Isso reforça a necessidade de uma política pública integrada que vá além do incentivo pontual e trate a agricultura orgânica como componente estratégico de desenvolvimento rural.

Curiosamente, práticas como agricultura coletiva foram bem avaliadas, sugerindo que soluções comunitárias podem reduzir custos, facilitar o acesso a mercados e promover conhecimento entre agricultores. A construção de redes locais de apoio e o fortalecimento da identidade do produto orgânico no mercado são caminhos promissores para transformar realidades rurais em regiões vulneráveis.

O estudo conclui que, para que o modelo orgânico ganhe escala, é indispensável aliar medidas técnicas, sociais e econômicas sistematizadas. Governos precisam replicar experiências exitosas como a do estado de Sikkim, que já alcançou 100% de produção orgânica, e reforçar investimentos em pesquisa agrícola para identificar variedades adaptadas, práticas resilientes e cadeias de valor robustas.

Como desdobramento, os autores argumentam que a inclusão produtiva de pequenos agricultores só será viável se eles forem integrados a políticas estruturantes e programas de fortalecimento da agricultura familiar. Isso inclui mercados específicos para produtos orgânicos, estrutura logística adequada e fomento à transição progressiva por meio de cooperativas, assistência extensionista e educação aplicada.

Fonte: Economic and Environmental Effects of Organic Farming: Analysing Implications and Solutions for Small-Scale Farmers in Developing Countries

Compartilhar